PONTO DE PARTIDA

PONTO DE PARTIDA

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

UMA REFLEXÃO PARA OS QUE DIZEM QUE OS NEGROS GOSTAM DE SE FAZER DE VÍTIMAS

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1837 - Primeira lei de educação: negros não podem ir à escola.

1850 - Lei das terras: negros não podem ser proprietários.

1871 - Lei do Ventre Livre - quem nascia livre?

1885 - Lei do Sexagenário - quem sobrevivia para ficar livre?

1888 - Abolição (atentem, foram 388 anos de escravidão)

1890 - Lei dos vadios e capoeiras - os que perambulavam pelas ruas, sem trabalho ou residência comprovada, iriam pra cadeia. Eram mesmo "livres"? Dá para imaginar qual era a cor da população carcerária daquela época? Você sabe a cor predominante nos presídios hoje?

1968 - Lei do Boi: 1ª lei de cotas! Não, não foi para negros, foi para filhos de donos de terras, que conseguiram vaga nas escolas técnicas e nas universidades (volte e releia sobre a lei de 1850!!!)

1988 - Nasce nossa ATUAL CONSTITUIÇÃO. Foram necessários 488 anos para ter uma constituição que dissesse que racismo é crime! Na maioria das ocorrências se minimiza o racismo enquanto injúria racial e nada acontece.

2001 - Conferência de Durban, o Estado reconhece que terá que fazer políticas de reparação e ações afirmativas. Mas, não foi porque acordaram bonzinhos! Não foi sem luta. Foram décadas de lutas para que houvesse esse reconhecimento! E olha que até hoje tem gente que ignora, hein!

2003 - Lei 10639 - estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira". Que convenhamos não é cumprida, né?

2009 - A Política de Saúde da População Negra. Que prossegue sendo negligenciada e violentada (quem são as maiores vítimas da violência obstétrica?) no sistema de saúde.

2010 - Lei 12288 - Estatuto da Igualdade Racial. Em um país que se nega a reconhecer a existência do racismo.

2012 - Lei 12711 - Cotas nas universidades. A revolta da casa grande sob um falso pretexto meritocrata.

Nossa sociedade é racista e ainda escravocrata e essa linha do tempo tá aí pra evidenciar."

Por Dri Santos

quinta-feira, 18 de abril de 2019

O Verdadeiro sentido da Páscoa - Uma reflexão


Por ter tido uma formação cristã, desde minha infância, me acompanha algumas reflexões sobre o verdadeiro sentido da Páscoa.

Nunca fui influenciado pela propaganda consumista dos ovos de chocolates, até porque para o pobre, não é possível "se dar ao luxo" de comprar chocolate quando existem outras necessidades alimentares mais urgentes. Sem falar naquelas famílias, abaixo da linha de pobreza, que nem comida tem, nem casa, nem trabalho... nada.

Fui crescendo e algumas certezas foram sendo construídas. Especialmente uma compreensão sempre teve um lugar especial em minha mente:

Sendo a Páscoa a celebração da história de Jesus Cristo, que veio a esse mundo dar um testemunho de vida, que transmitiu uma mensagem de paz e de amor, que deu sua vida para provar ser verdade aquilo que vivia e que pregava, que enfrentou os poderosos, mostrando a necessidade de se construir um mundo baseado nas relações de fraternidade, da solidariedade, do amor ao outro, do olhar especial pelos mais pobres... PORQUE TANTAS PESSOAS (MUITOS INCLUSIVE, QUE SE DIZ CRISTÃOS) DÃO MAIS IMPORTÂNCIA AO COELHINHO E AOS OVOS DE CHOCOLATE? AO CONSUMISMO BANAL?

Além disso, vemos alguns "costumes" que sinceramente, não se justificam:

- Uns passam a maior parte do tempo de sua vida, falando mal dos outros, disseminando o ódio, a intriga e pregando a violência, daí, acham que na Páscoa tudo é resolvido com a distribuição de ovos de chocolates e presentes entre os amigos(as) e parentes, vai à missa e tá tudo bem. Esqueceram que suas atitudes foram e são repudiadas pelo exemplo do próprio Jesus Cristo.

- Outros, promovem almoços de Páscoa imensamente fartos, comem bastante, vão à missa e, acham que é um exemplo de cristão. Só esquecem que Jesus Cristo viveu e pregou a partilha, o dividir com os que mais precisam.

- Existem ainda aqueles que enchem a cara, substituem as outras bebidas alcoólicas pelo vinho e, enchem a cara, achando que assim estão respeitando alguma coisa? 

Enfim, são várias formas utilizadas para se "comemorar" a Páscoa, que ficam muito longe do verdadeiro objetivo e da real simbologia desta data.

Se alguém quer vivenciar o verdadeiro sentido da Páscoa, reflita sobre a vida, o exemplo, a dedicação, o compromisso e a entrega de Jesus Cristo, daí é só seguir o exemplo deixado por Ele.

Teríamos, certamente, um mundo bem melhor!

Dia 18 de abril - Cuidado com ele


Hoje morreu, em 1955, Albert Einstein.

Até este dia, e durante vinte e dois anos, o FBI, Federal Bureau of Investigation, grampeou seu telefone, leu suas cartas e revirou suas latas de lixo.

Einstein foi espionado porque era espião. Espião de Moscou:
era o que dizia sua frondosa ficha policial. E também dizia que ele havia inventado um raio exterminador e um robô capaz de ler a mente humana.

E dizia que Einstein foi membro, colaborador ou filiado a trinta e quatro frentes comunistas entre 1937 e 1954, dirigiu honorariamente três organizações comunistas, e não parece possível que um homem com esses antecedentes possa se transformar num leal cidadão americano.

Nem a morte o salvou. Continuou sendo espionado. Já não pelo FBI, mas pelos seus colegas, os homens da ciência, que cortaram seu cérebro em duzentos e quarenta pedacinhos e analisaram um por um, à procura da explicação de seu gênio.

Não encontraram nada.
Einstein bem que tinha avisado:
– A única coisa de anormal que tenho é a minha curiosidade.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 17 de abril - Caruso cantou e correu


Nesta noite de 1906, o tenor Enrico Caruso cantou a ópera Carmen na sala Tívoli, na cidade de San Francisco.

A ovação o acompanhou até as portas do hotel Palace.

Dormiu pouco, o mestre do bel canto. Ao amanhecer, um tranco violento o jogou da cama.

O terremoto, o pior de toda a história da Califórnia, matou mais de três mil pessoas e demoliu metade das casas da cidade.

Caruso desandou a correr e não parou até chegar em Roma.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 16 de abril - O canto profundo


No ano de 1881, Antonio Machado y Álvarez pôs o ponto final em sua antologia de cantos flamencos, novecentas quadras do cantar cigano da Andaluzia:
 
Eram insossas no antigo
todas as ondas do mar,
mas cuspiu minha morena
e se fizeram salgadas.

Têm, as que são morenas,
um olhar tão estranho,
que matam em uma hora
mais que a morte em um ano.

No dia em que nasceste
caiu um pedaço do céu.
E até que tu morras
o rombo fica lá, ao léu.


E o livro foi publicado, e recebido com desdém. O cante jondo, canto profundo, era digno de desprezo por ser cigano.

Mas, por serem ciganas, as quadras trazem dentro de si a música, e em suas palmas e em seus pés.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 15 de abril - As pinturas negras


Em 1828, Francisco de Goya morreu no desterro.

Acossado pela Inquisição, tinha partido para a França.

Em sua agonia, Goya evocou, entre algumas palavras incompreensíveis, sua querida casa dos arredores de Madri, nas margens do rio Manzanares. Lá havia ficado o melhor dele, o mais seu, pintado nas paredes.

Depois da sua morte, essa casa foi vendida e revendida, com pinturas e tudo, até que as obras, desprendidas das paredes, passaram para a tela. Foram oferecidas, em vão, na Exposição Internacional de Paris.

Ninguém se interessou em ver, e muito menos em comprar, essas ferozes profecias do século seguinte, onde a dor matava a cor e sem pudor o horror se mostrava em carne viva.

Tampouco o Museu do Prado quis comprá-las, até que no começo de 1882 as obras enfim entraram lá, doadas.

As chamadas pinturas negras ocupam, agora, uma das salas
mais visitadas do museu.
– Isso, eu pinto para mim – havia dito Goya.

Ele não sabia que pintava para nós.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Dia 14 de abril - Grandiosos ou grandalhões?


No ano de 1588, foi vencida, em poucas horas, a Armada Invencível, a frota espanhola que era a maior do mundo.

No ano de 1628, o mais poderoso navio de guerra da Suécia, o Vasa, também chamado de Invencível, afundou em sua viagem inaugural. Não chegou nem a sair do porto de Estocolmo.

E na noite de hoje do ano de 1912 chocou-se contra um iceberg e foi a pique o navio mais luxuoso e mais seguro, humildemente chamado de Titanic.

Esse palácio flutuante tinha poucos botes salva-vidas, seu timão era tão pequeno que acabou sendo inútil, seus vigias não usavam binóculos e seus alarmes de perigo não foram ouvidos por ninguém.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 13 de abril - Não soubemos ver você


No ano de 2009, no átrio do convento de Mani de Iucatã, quarenta e dois frades franciscanos cumpriram uma cerimônia de desagravo à cultura indígena:
– Pedimos perdão ao povo maia, por não haver entendido sua cosmovisão, sua religião, por negar suas divindades; por não ter respeitado sua cultura, por haver imposto durante muitos séculos uma religião que não entendiam, por haver satanizado suas práticas religiosas, e por haver dito e escrito que eram obra do Demônio e que seus ídolos eram o próprio Satanás materializado.

Quatro séculos e meio antes, naquele mesmo lugar, outro frade franciscano, Diego de Landa, havia queimado os livros maias, que guardavam oito séculos de memória coletiva.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 12 de abril - A fabricação do culpado


Num dia como o de hoje do ano 33, dia a mais, dia a menos, Jesus de Nazaré morreu na cruz.

Seus juízes o condenaram por incitação à idolatria, blasfêmias e superstição abominável.

Alguns séculos depois, os índios das Américas e os hereges da Europa foram condenados por esses mesmos crimes, exatamente os mesmos, e em nome de Jesus de Nazaré foram castigados com açoite, forca ou fogo.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 11 de abril -Meios de comunicação


No dia de hoje do ano de 2002, um golpe de Estado transformou o presidente dos empresários em presidente da Venezuela.

Pouco durou a sua glória. Um par de dias depois, os venezuelanos, esparramados pelas ruas, restituíram o presidente eleito pelos seus votos.

As grandes emissoras de televisão e as rádios de maior difusão da Venezuela haviam celebrado o golpe, mas não perceberam que o povo havia devolvido Hugo Chávez ao seu devido lugar.

Por se tratar de uma notícia desagradável, os meios de comunicação não comunicaram nada.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 10 de abril - A fabricação de doenças


Boa saúde? Saúde ruim? Tudo depende do ponto de vista. Do ponto de vista da grande indústria farmacêutica, a má saúde é muito saudável.

A timidez, digamos, podia ser simpática, e talvez atrativa, até se transformar em doença.

No ano de 1980, a American Psychiatric Association decidiu que a timidez é uma doença psiquiátrica e a incluiu em seu Manual de alterações mentais, que periodicamente põe os sacerdotes da Ciência em dia.

Como toda doença, a timidez precisa de medicamentos.

Desde que a notícia se tornou conhecida, os grandes laboratórios ganharam fortunas vendendo esperanças de cura aos pacientes infestados por essa fobia social, alergia a pessoas, doença médica severa...

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 9 de abril - A boa saúde


No ano de 2011, pela segunda vez a população da Islândia disse não às ordens do Fundo Monetário Internacional.

O FMI e a União Europeia tinham decidido que os trezentos e vinte mil habitantes da Islândia deveriam assumir a bancarrota dos banqueiros e pagar suas dívidas internacionais na base de doze mil euros por cabeça.

Essa socialização pelo avesso foi rejeitada em dois plebiscitos:
– Essa dívida não é nossa. Por que vamos pagar?

Num mundo enlouquecido pela crise financeira, a pequena ilha perdida nas águas do norte nos deu, a todos nós, uma saudável lição de bom-senso.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 8 de abril - O homem que nasceu muitas vezes


Morreu hoje, em 1973, Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso, mais conhecido como Pablo Picasso.

Tinha nascido em 1881. E dá para ver que gostou de nascer, porque continuou nascendo.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 7 de abril - A conta do doutor


Há três mil e setecentos anos, o rei da Babilônia, Hamurabi, estabeleceu por lei as tarifas médicas, ditadas pelos deuses:
Se o médico curou com sua lanceta de bronze uma ferida grave ou o abscesso em um olho de um homem livre, receberá dez shekels de prata.

Se o paciente é de família pobre, o médico receberá cinco shekels de prata. Se o paciente é escravo de um homem livre, seu senhor pagará ao médico dois shekels de prata.

Serão cortadas as mãos do médico se o seu tratamento tiver causado a morte de um homem livre ou provocado a perda de um olho.

Se o tratamento causou a morte do escravo de um homem pobre, o médico lhe entregará um escravo seu.

Se o tratamento tiver causado a perda de um olho do escravo, o médico pagará a metade do preço do escravo.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 6 de abril - Travessia da noite


Em certas aldeias perdidas nas montanhas da Guatemala, mãos anônimas criam bonequinhos das preocupações.
 
Eles são um santo remédio contra as preocupações: despreocupam os preocupados e os salvam da peste da insônia.

Os bonequinhos das preocupações não dizem nada. Eles curam escutando.

Agachados debaixo do travesseiro, escutam os pesares e os penares, as dúvidas e as dívidas, tormentos que acossam o dormir humano, e magicamente levam tudo para longe, muito longe, até o lugar secreto onde nenhuma noite é inimiga.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 5 de abril - Dia de luz


Aconteceu na África, em Ifé, cidade sagrada do reino dos iorubas, talvez num dia como hoje, ou quem sabe quando.

Um velho, já muito enfermo, reuniu seus três filhos e anunciou:
– Minhas coisas mais queridas serão de quem conseguir encher esta sala completamente.

E esperou lá fora, sentado, enquanto a noite caía.

Um dos filhos trouxe toda a palha que conseguiu juntar, mas a sala só ficou cheia até a metade.

Outro filho trouxe toda a areia que conseguiu reunir, mas metade da sala ficou vazia.

O terceiro filho acendeu uma vela.
E a sala se encheu.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 4 de abril - O fantasma


Em 1846 nasceu Isidore Ducasse.

Eram tempos de guerra em Montevidéu, e ele foi batizado ao som de tiros de canhão.

Assim que pôde, foi-se embora para Paris. Lá se transformou no Conde de Lautréamont, e seus pesadelos contribuíram para a fundação do surrealismo.

Neste mundo, passou de visita: em sua breve vida incendiou a linguagem, em suas palavras ardeu e virou fumaça.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 3 de abril - Bons garotos


Em 1882, uma bala entrou na nuca de Jesse James. Foi disparada pelo seu melhor amigo, para receber a recompensa.

Antes de se transformar no bandoleiro mais famoso, Jesse havia combatido contra o presidente Lincoln, nas fileiras do exército escravagista do Sul.

Quando perderam a guerra, ele não teve outro remédio a não ser mudar de emprego. Assim nasceu a quadrilha de Jesse James.

A quadrilha, que usava máscaras do Ku Klux Klan, começou suas atividades assaltando um trem pela primeira vez na história dos Estados Unidos; e depois de limpar todos os passageiros, se dedicou a rapar bancos e diligências.

A lenda conta que Jesse foi um tipo meio Robin Hood do Velho Oeste, que roubava dos ricos para ajudar os pobres, mas ninguém jamais conheceu um pobre que tivesse recebido uma única moeda de suas mãos.

Em compensação, está mais que provado que ele ajudou Hollywood, e muito. A indústria do cinema deve a ele quarenta filmes, quase todos de sucesso, onde os astros mais famosos, de Tyrone Power a Brad Pitt, empunharam seu revólver fumegante.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 2 de abril - A fabricação da opinião pública


Em 1917, o presidente Woodrow Wilson anunciou que os Estados Unidos entrariam na Primeira Guerra Mundial.

Quatro meses e meio antes, Wilson tinha sido reeleito por ser o candidato da paz.

A opinião pública recebeu seus discursos pacifistas e sua declaração de guerra com o mesmo entusiasmo.

Edward Bernays foi o principal autor desse milagre.

Quando a guerra terminou, Bernays reconheceu publicamente que tinham sido inventadas as fotos e as histórias que acenderam o espírito bélico das massas.

Esse êxito publicitário inaugurou uma carreira brilhante.

Bernays se transformou no assessor de vários presidentes e dos empresários mais poderosos do mundo.

A realidade não é o que é, e sim o que eu digo que ela é: Bernays desenvolveu melhor que ninguém as técnicas modernas de manipulação coletiva, que empurram as pessoas para que comprem um sabonete ou uma guerra.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 1 de abril - O primeiro bispo

Imagem ilustrativa

Em 1553, o primeiro bispo do Brasil, Pedro Sardinha, desembarcou nestas terras.

Três anos depois, no sul de Alagoas, foi comido pelos índios caetés.

Alguns brasileiros acham que esse almoço foi uma invenção, um pretexto do poder colonial para roubar as terras dos caetés e exterminá-los ao longo de uma longa guerra santa.

Outros brasileiros, porém, acham que essa história ocorreu do jeito que é contada. O bispo Sardinha, que levava o destino no nome, foi o involuntário fundador da gastronomia nacional.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 30 de março - Dia do Serviço Doméstico

Imagem ilustrativa
Maruja não tinha idade.

De seus anos de antes, nada contava. De seus anos de depois, nada esperava.

Não era bonita, nem feia, nem mais ou menos.

Caminhava arrastando os pés, empunhando o espanador, ou a vassoura, ou a caçarola.

Acordada, afundava a cabeça entre os ombros.

Dormindo, afundava a cabeça entre os joelhos.

Quando falavam com ela, olhava para o chão, como quem conta formigas.

Havia trabalhado em casas alheias desde que tinha memória.
 
Nunca havia saído da cidade de Lima.

Fez muita faxina, de casa em casa, e não se achava em nenhuma delas. Finalmente, encontrou um lugar onde foi tratada como se fosse uma pessoa.

Poucos dias depois, foi-se embora.

O carinho estava virando costume.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 29 de março - Aqui existiu uma selva


Milagre na selva amazônica: no ano de 1967, um grande jorro de petróleo brotou do lago Agrio.

A partir de então, a empresa Texaco sentou-se à mesa, guardanapo no pescoço e garfo na mão, e se fartou de engolir petróleo e gás durante um quarto de século, e cagou sobre a selva equatoriana setenta e sete bilhões de litros de veneno.

Os indígenas não conheciam a palavra contaminação.

Ficaram conhecendo quando os peixes desandaram a morrer nos rios de barriga para cima, as lagoas ficaram salgadas, as árvores secaram na beira d’água, os animais começaram a fugir, a terra deixou de dar frutos e as pessoas passaram a nascer doentes.

Vários presidentes do Equador, todos eles acima de qualquer suspeita, colaboraram na tarefa, que foi desinteressadamente aplaudida pelos publicitários que a exaltaram, os jornalistas que a enfeitaram, os advogados que a defenderam, os especialistas que a justificaram e os cientistas que a absolveram.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 28 de março - A fabricação da África


Em 1932, pouco depois de sua estreia, Tarzan, o rei das selvas atraía multidões que faziam longas filas nos cinemas.

Desde então, Tarzan foi Johnny Weissmuller, nascido na Romênia, e seu grito, difundido por Hollywood, foi o idioma universal da África, embora ele nunca tenha estado lá.

Tarzan não tinha um vocabulário dos mais ricos, só sabia dizer Me Tarzan, you Jane , mas nadava feito ninguém, ganhou cinco medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos e gritava como ninguém jamais havia gritado.

Esse uivo do rei da selva era obra de Douglas Shearer, um especialista em som que soube mesclar vozes de gorilas, hienas, camelos, violinos, sopranos e tenores.

Até o último de seus dias, Johnny Weissmuller teve que
suportar o assédio de admiradoras que rogavam para ele uivar.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 27 de março - Dia do Teatro


No ano de 2010, a empresa Murray Hill Inc. exigiu que os políticos que fingem governar deixassem de fazer teatro.

Pouco antes, a Suprema Corte de Justiça dos Estados Unidos havia declarado que não violam a lei as empresas que financiam as campanhas eleitorais dos políticos; e, desde muito antes, já eram legais os subornos que os legisladores recebem através dos lobbies.

Aplicando o bom-senso, Murray Hill Inc. anunciou que apresentaria sua candidatura ao Congresso dos Estados Unidos, pelo estado de Maryland. Já era hora de prescindir dos intermediários:
– É a nossa democracia. Nós a compramos. Nós pagamos por ela. Por que não assumirmos o volante? Votem em nós, para ter a melhor democracia que o dinheiro pode comprar.

Muita gente pensou que era piada. Era?

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

domingo, 24 de março de 2019

Dia 26 de março - Libertadoras maias


Nesta noite de 1936, foi morta a pedradas Felipa Poot, indígena maia, no povoado de Kinchil.

No meio das pedradas, caíram com ela três companheiras, também maias, que ao seu lado lutavam contra a tristeza e o medo.

Foram mortas pela casta divina, como se chamavam a si mesmos os donos da terra e da gente de Iucatã.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 24 de março - Por que desaparecemos os desaparecidos


No dia de hoje do ano de 1976, nasceu a ditadura militar que desapareceu com milhares de argentinos.

Vinte anos depois, o general Jorge Rafael Videla explicou ao jornalista Guido Braslavsky:
– Não, não dava para fuzilar. Vamos pôr um número, vamos dizer cinco mil. A sociedade argentina não teria apoiado os fuzilamentos: ontem dois em Buenos Aires, hoje seis em Córdoba, amanhã quatro em Rosário, e isso até cinco mil... Não, não era possível. E dizer onde estão os restos?

Mas o que é que podíamos dizer? No mar, no rio da Prata, no Riachuelo?

Chegou-se a pensar, na época, em divulgar as listas. Mas depois pensamos:
se são dados por mortos, em seguida virão as perguntas que não podem ser respondidas: quem matou, quando, onde, como...


Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 23 de março - Por que massacramos os índios


No ano de 1982 o general Efraín Ríos Montt derrubou outro general, através de rasteira certeira, e se proclamou presidente da Guatemala.

Um ano e meio depois, o presidente, pastor da Igreja do Verbo, com sede na Califórnia, se atribuiu a vitória na guerra santa que exterminou quatrocentas e quarenta comunidades indígenas.

De acordo com o que ele disse, essa façanha não teria sido possível sem a ajuda do Espírito Santo, que dirigia seus serviços de inteligência.

Outro importante colaborador, seu assessor espiritual Francisco Bianchi, explicou a um correspondente do The New York Times:
– A guerrilha tem muitos colaboradores entre os índios. Esses índios são subversivos, não é mesmo? E como acabar com a subversão? É evidente que é preciso matar esses índios.

Depois vão dizer por aí: “Estão massacrando inocentes”. Mas não são inocentes.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 22 de março - Dia da Água


De água somos.

Da água brotou a vida. Os rios são o sangue que nutre a terra, e são feitas de água as células que nos pensam, as lágrimas que nos choram e a memória que nos recorda.

A memória nos conta que os desertos de hoje foram os bosques de ontem, e que o mundo seco foi mundo molhado, naqueles remotos tempos em que a água e a terra eram de ninguém e eram de todos.

Quem ficou com a água? O macaco que tinha o garrote. O macaco desarmado morreu de uma garrotada. Se não me engano, assim começava o filme 2001, Uma odisseia no espaço.

Algum tempo depois, no ano de 2009, uma nave espacial descobriu que existe água na Lua. A notícia apressou os planos de conquista.

Pobre Lua.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 21 de março - O mundo que é


A Segunda Guerra Mundial foi a que mais gente matou em toda a história das carnificinas humanas, mas a contagem das vítimas ficou aquém.

Muitos soldados das colônias não apareceram nas listas dos mortos. Eram os nativos australianos, indianos, birmaneses, filipinos, argelinos, senegaleses, vietnamitas e outros tantos negros, marrons e amarelos obrigados a morrer pela bandeira de seus amos.

Cotações: há viventes de primeira, segunda, terceira e quarta categoria.

Com os mortos acontece a mesma coisa.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 20 de março - O mundo que poderia ter sido


No dia 20 de março de 2003 os aviões do Iraque bombardearam os Estados Unidos.

Atrás das bombas, as tropas iraquianas invadiram o território norte-americano.

Houve numerosos danos colaterais. Muitos civis norteamericanos, em sua maioria mulheres e crianças, perderam a vida ou foram mutilados.

Desconhece-se a cifra exata, porque a tradição manda contar as vítimas das tropas invasoras e proíbe contar as vítimas da população invadida.

A guerra foi inevitável. A segurança do Iraque, e da humanidade inteira, estava ameaçada pelas armas de destruição massiva acumuladas nos arsenais dos Estados Unidos.

Nenhum fundamento tinham, porém, os rumores insidiosos que atribuíam ao Iraque a intenção de ficar com o petróleo do Alasca.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 19 de março - Nascimento do cinema


Em 1895, os irmãos Lumière, Louis e Auguste, filmaram um brevíssimo curta-metragem que mostrava a saída dos operários numa fábrica de Lyon.

Esse filme, o primeiro da história do cinema, foi visto por poucos amigos, muito poucos, e por ninguém mais.

Finalmente, no dia 28 de dezembro, os irmãos Lumière exibiram o filme para o grande público, junto com outros nove curtas-metragens de sua autoria, que também registravam fugazes momentos da realidade.

No porão do Grand Café de Paris, aconteceu a estreia mundial do prodigioso espetáculo, filho da lanterna mágica, da roda da vida e de outras artes de ilusionistas.

Lotação completa. Trinta e cinco pessoas, a um franco o ingresso.

Georges Méliès foi um dos espectadores. Quis comprar a máquina filmadora. Como não quiseram vender, inventou outra.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 18 de março - Com os deuses por dentro


Na cordilheira dos Andes, os conquistadores espanhóis haviam expulsado os deuses indígenas.

A idolatria foi extirpada.

Mas lá pelo ano de 1560 os deuses regressaram. Viajaram com suas grandes asas, vindos sabe-se lá de onde, e se meteram nos corpos de seus filhos, de Ayacucho até Oruro, e nesses corpos dançaram.

As danças, que dançavam a rebelião, foram castigadas com o açoite ou a forca, mas não houve maneira de pará-las.

E continuaram anunciando o fim da humilhação.

Na língua quéchua, a palavra ñaupa significa foi, mas também
significa será.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 17 de março - Eles souberam escutar


Carlos e Gudrun Lenkersdorf nasceram e viveram na Alemanha. No ano de 1973, esses ilustres professores chegaram ao México. E entraram no mundo maia, numa comunidade tojolabal, e se apresentaram dizendo:
– Nós viemos para aprender.

Os indígenas ficaram em silêncio.

Depois de um tempinho, alguém explicou o silêncio:
– É a primeira vez que alguém diz isso para a gente.

E aprendendo Gudrun e Carlos ficaram por lá, durante anos e anos. Da língua maia, aprenderam que não há hierarquia que separe o sujeito do objeto, porque eu bebo a água que me bebe e sou visto por tudo que vejo, e aprenderam a cumprimentar assim:
– Eu sou outro você.
– Você é outro eu.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 16 de março - Quem conta um conto


Por esses dias, e em outros também, os narradores que contam contos a viva voz, escrevendo no ar, celebram seus festivais.

Os contadores de contos têm numerosas divindades que os inspiram e amparam.

Entre elas, Rafuema, o avô que contou a história da origem do povo uitoto, na região colombiana de Araracuara.

Rafuema contou que os uitotos nasceram das palavras que contaram seu nascimento. E cada vez que ele contava isso, os uitotos tornavam a nascer.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 15 de março - Vozes da noite


Neste amanhecer do ano 44 a.C., Calpúrnia despertou chorando.

Ela havia sonhado que o marido, crivado de punhaladas, agonizava em seus braços.

E Calpúrnia contou o sonho para o marido, e chorando rogou que ficasse em casa, porque lá fora o cemitério esperava por ele.

Mas o pontífice máximo, o ditador vitalício, o guerreiro divino, o deus invicto, não podia dar importância ao sonho de uma mulher.

Júlio César afastou-a com um empurrão, e rumo ao Senado de Roma caminhou sua morte.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 14 de março - O capital


Em 1883, uma multidão compareceu ao enterro de Karl Marx no cemitério de Londres: uma multidão de onze pessoas, contando o coveiro.

A mais famosa de suas frases foi seu epitáfio: Os filósofos interpretaram o mundo, de várias maneiras; mas a questão é mudar o mundo.

Este profeta da transformação do mundo passou sua vida fugindo da polícia e dos credores.

Sobre sua obra-prima, comentou:
Ninguém escreveu tanto sobre o dinheiro, tendo tão pouco dinheiro.

O capital não vai pagar nem os charutos que fumei enquanto escrevia.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 13 de março - As boas consciências


No dia de hoje do ano de 2007, a empresa bananeira Chiquita Brands, herdeira da United Fruit, reconheceu que durante sete anos havia financiado os paramilitares colombianos, e aceitou pagar uma multa.

Os paramilitares ofereciam proteção contra as greves e outros maus hábitos dos sindicatos de trabalhadores. Cento e setenta e três sindicalistas foram assassinados na região bananeira, naqueles sete anos.

A multa foi de vinte e cinco milhões de dólares. Nem um único
centavo chegou às famílias das vítimas.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 12 de março - Mais sabe o sonho que a vigília


Fica rubro o monte Fuji, o símbolo do Japão.

Cobrem o céu as vermelhas nuvens de plutônio, as nuvens amarelas de estrôncio, as nuvens púrpuras de césio, todas elas carregadas de câncer e de outros monstros.

Seis centrais nucleares explodiram.

As pessoas, desesperadas, fogem para lugar nenhum:
– Eles nos enganaram! Eles mentiram para nós!

Alguns se atiram no mar ou no vazio, para apressar o destino.

Akira Kurosawa sonhou esse pesadelo, e o filmou, vinte anos
antes da catástrofe nuclear que no começo de 2011 desencadeou um apocalipse em seu país.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 11 de março - A esquerda é a universidade da direita


Em 1931 nasceu, na Austrália, um bebê que foi chamado de Rupert.

Em poucos anos, Rupert Murdoch se tornou amo e senhor dos meios de comunicação no mundo inteiro.

O assombroso voo rumo ao êxito não se explica só pela sua astúcia e sua maestria no jogo sujo. Rupert também foi ajudado pelo seu conhecimento dos segredos do sistema capitalista.

E isso ele aprendeu quando era um estudante de vinte e poucos anos que admirava Lênin e lia Marx.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 10 de março - O Diabo tocou violino


Nesta noite de 1712, o Diabo visitou o jovem violinista Giuseppe Tartini, e em sonhos tocou para ele.

Giuseppe queria que aquela música não terminasse nunca; mas, quando acordou, a música tinha ido embora.

Na procura daquela música perdida, Tartini compôs duzentas e dezenove sonatas, que executou com inútil maestria durante toda a sua vida.

O público aplaudia seus fracassos.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 9 de março - O dia em que o México invadiu os Estados Unidos


Nesta madrugada de 1916, Pancho Villa atravessou a fronteira, incendiou a cidade de Columbus, matou alguns soldados, levou embora alguns cavalos e algumas munições, e no dia seguinte voltou para o México, para contar sua façanha.

Essa fugaz incursão dos ginetes de Pancho Villa foi a única invasão que os Estados Unidos sofreram em toda a sua história.

Por sua vez, o país invadiu e continua invadindo quase o mundo inteiro.

Desde 1947, seu Ministério da Guerra se chama Ministério de Defesa, e seu orçamento de Guerra se chama orçamento de Defesa.

O nome é um enigma ainda mais indecifrável que o mistério da Santíssima Trindade.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

sexta-feira, 8 de março de 2019

Por aquelas, que são discriminadas, marginalizadas, invisibilizadas e violentadas


Refletindo sobre o 8 de março, vendo tantas mensagens acompanhadas de flores, imagens bonitas em que figuram mulheres sorrindo, e outras frases poéticas...

Me sinto no compromisso de lembrar das mulheres, tantas Marias, Josefas, Quitérias, Margaridas, Severinas... aquelas que não figuram nos cartazes e outras peças de mensagens...

Daquelas que sobrevivem nas periferias urbanas e rurais, nas favelas, nas ruas, embaixo de pontes, nos lixões em condições desumanas.

Daquelas abandonadas, excluídas, invisibilizadas, marginalizadas, exploradas (em casa ou no trabalho).

Daquelas desprezadas, agredidas e violentadas, muitas vezes pelos seus próprios "companheiros".

Daquelas vítimas da covardia machista que agride, violenta e mata.

Daquelas que não podem dar a seus filhos uma roupa, calçado ou comida.

Daquelas que às vezes não encontrando saída, são levadas a se prostituirem, submetendo-se a exploração para (no mínimo) sobreviver.

Daquelas invisibilizadas, que não são tratadas como seres humanos, que contam apenas como estatística social.

Enfim, lembrar daquelas mulheres, que trazem no corpo e no rosto, a dor do sofrimento, das perdas, das lutas diárias, das injustiças (das quais são vítimas constantes) e da violência covarde.

Busco palavras que possam lhes definir, sabendo que são infindáveies suas qualidades...

BELEZA, FORÇA, RAÇA, GANA E RESISTÊNCIA!

Assim as vejo!

8 DE MARÇO - DIA INTERNACIONAL DA MULHER


A todo instante devemos nos sentir convocados a refletir sobre a Mulher.
A Mulher que na sociedade em que vivemos ainda sofre imensamente com as discriminações e as explorações em casa, no trabalho e até mesmo nos grupos que compõem a chamada sociedade organizada.

Vista  ou propagada muitas vezes (nos grandes veículos de comunicação, redes sociais ou propagandas), como símbolo ou objeto sexual, sendo vítima do extremo machismo que desrespeita, assedia e agride, ou ainda da selvageria dos que violam, estupram e matam.

Ela ainda é vista por alguns como frágil, muitas vezes desprezada, esquecida e marginalizada por uma estrutura social injusta e desumana.
No passar dos séculos e principalmente das décadas mais recentes, as mulheres têm buscado, e conquistado espaços significativos na sociedade, ocupando funções e desenvolvendo atividades antes reservadas apenas aos homens.

No entanto, tudo isto ainda é insuficiente, pois, não se trata de (na visão machista) “dar espaço às mulheres”, como se fosse uma concessão dos homens ou da sociedade, e não como um direito legítimo enquanto ser humano, conquistado através de muitas lutas.

Para que haja na verdade o respeito aos direitos da mulher enquanto pessoa e ser humano que é, teremos que ir muito além dos limites atuais, romper com as amarras do conservadorismo e da discriminação, criados desde tempos passados, destruir as injustiças existentes nesta sociedade, vencer nossos preconceitos enraizados na nossa formação e impregnados em nossa cultura.

A plenitude desta conquista virá  com o surgimento de uma sociedade, baseada na justiça, na igualdade, na  solidariedade e na democracia; onde o homem não veja a mulher como objeto de satisfação dos seus “desejos”, que seja capaz de conviver com a mulher como uma companheira e não como escrava ou empregada; um novo homem capaz de amar, capaz de expressar os gestos mais puros e sinceros; quando a mulher também entender e decidir que não deve permitir que seja usada, que não deve ser peça descartável, que não deve se vender ou submeter-se, que deve lutar e exigir o reconhecimento de seus valores; quando homem e mulher compreenderem que todos devem ser iguais em direitos e deveres, e que um não é superior ao outro.

Somente assim, com uma mudança total, viveremos o nascimento de uma Nova Mulher, verdadeiramente Livre, Independente e Feliz.

Uma saudação especial a todas as mulheres, mães, esposas, amantes, companheiras, guerreiras, guerrilheiras, a estas Marias/Mulheres que são “um dom, uma certa magia, uma força que nos alerta... uma mulher que merece viver e amar como todas as pessoas do planeta”.

Até a vitória sempre!!

Mulher!!

Dia 8 de março - Homenagens


Hoje é o Dia da Mulher.

Ao longo da história, vários pensadores, humanos e divinos,
todos machos, cuidaram da mulher, por várias razões:
 
- Pela sua anatomia
Aristóteles: A mulher é um homem incompleto.
São Tomás de Aquino: A mulher é um erro da natureza, nasce de um esperma em mau estado.
Martinho Lutero: Os homens têm ombros largos e cadeiras estreitas.
São dotados de inteligência. As mulheres têm ombros estreitos e cadeiras largas, para ter filhos e ficar em casa.
 
- Pela sua natureza
Francisco de Quevedo: As galinhas botam ovos e as mulheres, chifres.
São João Damasceno: A mulher é uma jumenta teimosa.
Arthur Schopenhauer: A mulher é um animal de cabelos longos e pensamentos curtos.
 
- Pelo seu destino
Disse Yahvé à mulher, segundo a Bíblia: Teu marido te dominará.
Disse Alá a Maomé, segundo o Corão: As boas mulheres são
obedientes.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 7 de março - As bruxas


No ano de 1770, uma lei inglesa condenou as mulheres enganadoras.

Essas pérfidas seduziam os súditos de Sua Majestade e os empurravam ao casamento utilizando artes más como perfumes, pinturas, banhos cosméticos, dentaduras postiças, perucas, recheios de lã, espartilhos, armações, aros e brincos e sapatos de salto alto.

As autoras dessas fraudes, dizia a lei, serão julgadas segundo as leis vigentes contra a bruxaria, e seus matrimônios serão declarados nulos e dissolvidos.

O atraso tecnológico impediu que fossem incluídos nessa lei o silicone, a lipoaspiração, o botox, a cirurgia plástica e outros prodígios cirúrgicos e químicos.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 6 de março - A florista


Georgia O’Keeffe viveu pintando durante quase um século, e pintando morreu.

Seus quadros ergueram um jardim na solidão do deserto.

As flores de Georgia, clitóris, vulvas, vaginas, mamilos,
umbigos, eram os cálices de uma missa de ação de graças pela alegria de ter nascido mulher.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

segunda-feira, 4 de março de 2019

Dia 5 de março - O divórcio como medida higiênica

Mercedes Pinto
Em 1953, estreou no México um filme de Luis Buñuel chamado Ele. Buñuel, desterrado espanhol, havia filmado o romance de uma desterrada espanhola, Mercedes Pinto, que contava os suplícios da vida conjugal.

Ficou três semanas em cartaz. O público ria como se fosse um filme do Cantinflas.

A autora do romance tinha sido expulsa da Espanha em 1923.

Ela havia cometido o sacrilégio de dar uma conferência na Universidade de Madri cujo título já fazia dela alguém insuportável: O divórcio como medida higiênica.

O ditador Miguel Primo de Rivera mandou chamá-la. Falou em nome da Igreja católica, a Santa Mãe, e em poucas palavras disse tudo:
– Ou se cala, senhora, ou vai embora.

E Mercedes Pinto foi-se embora.
A partir de então, seu passo criativo, que acordava o chão onde pisava, deixou sua marca no Uruguai, na Bolívia, na Argentina, em Cuba, no México...

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 4 de março - O milagre saudita


Em 1938, explodiu a grande notícia: a Standard Oil Company descobriu um mar de petróleo debaixo dos imensos areais da Arábia Saudita.

Atualmente, esse é o país que fabrica os terroristas mais famosos e o que mais viola os direitos humanos; mas as potências ocidentais, que tanto invocam o perigo árabe para semear pânico ou atirar bombas, se relacionam muitíssimo bem com esse reino de cinco mil príncipes.

Será porque também é o reino que mais petróleo vende e mais armas compra?

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

domingo, 3 de março de 2019

Dia 3 de março - Libertadoras brasileiras


Hoje terminou, em 1770, o reinado de Teresa de Benguela em Quariterê. Foi um dos santuários de liberdade dos escravos fugidos no Brasil. Durante vinte anos, Teresa enlouqueceu os soldados do governador de Mato Grosso. Não conseguiram apanhá-la viva.

Nos esconderijos da floresta, houve umas quantas mulheres que além de cozinhar e parir foram capazes de competir e de mandar, como Zacimba Gambá, no Espírito Santo, Mariana Crioula, no interior do Rio de Janeiro, Zeferina, na Bahia, e Felipa Maria Aranha, no Tocantins.

No Pará, nas margens do rio Trombetas, não havia quem discutisse as ordens de Mãe Domingas.

No vasto refúgio de Palmares, em Alagoas, a princesa africana Aqualtune governou uma aldeia livre, até que foi incendiada pelas tropas coloniais em 1677.

Ainda existe, e se chama Conceição das Crioulas, em Pernambuco, a comunidade que duas negras fugitivas, as irmãs Francisca e Mendecha Ferreira, fundaram em 1802.

Quando as tropas escravistas andavam por perto, as escravas liberadas enchiam de sementes suas frondosas cabeleiras africanas. Como em outros lugares das Américas, transformavam suas cabeças em celeiros, para o caso de ter de sair correndo em disparada.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 2 de março - Digo assoviando


O assovio é a linguagem de La Gomera.

Em 1999, o governo das ilhas Canárias decidiu que nas
escolas fosse estudado o idioma perpetuado pelo povo que o
assovia.

Nos tempos de antigamente, os pastores da ilha de La Gomera se comunicavam assoviando, desde as montanhas distantes, graças aos barrancos que multiplicavam os ecos. E assim transmitiam mensagens e contavam o acontecido, notícias de quem tinha ido e de quem tinha vindo, os perigos e as alegrias, os trabalhos e os dias.

Passaram-se dois séculos, e nesta ilha os assovios humanos,
invejados pelos pássaros, continuam sendo tão poderosos como as vozes do vento e do mar.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO