PONTO DE PARTIDA

PONTO DE PARTIDA

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Dia 01 de fevereiro - Um almirante aos pedaços


Blas de Lezo nasceu em Guipúzcoa, em 1689.

Esse almirante da frota espanhola derrotou os piratas ingleses na costa peruana, rendeu a poderosa cidade de Gênova, rendeu a cidade argelina de Orã e, em Cartagena das Índias, humilhou a armada britânica, lutando com muita astúcia e poucas naus.

Em suas vinte e duas batalhas, graças a um tiro de canhão perdeu uma perna, um estilhaço levou um de seus olhos e um tiro de mosquetão o deixou com um braço só.

Era chamado de Meio-homem.
 
Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO
 

Dia 31 - Somos de vento


Hoje nasceu, em 1908, Atahualpa Yupanqui.

Na vida, foram três: o violão, o cavalo e ele. 


Ou quatro, contando o vento.

Dia 30 - A catapulta


Em 1933, Adolf Hitler foi nomeado primeiro-ministro da Alemanha. Pouco depois, celebrou um ato imenso, como correspondia ao novo dono e senhor da nação.

Modestamente, gritou:
– Eu estou fundando a Era da Verdade! Desperta, Alemanha! Desperta!

e os rojões, os fogos de artifício, os sinos das igrejas, os cânticos e as ovações multiplicaram os ecos.

Cinco anos antes, o partido nazista havia conseguido menos de três por cento dos votos.

O salto olímpico de Hitler rumo ao topo foi tão espetacular como a simultânea queda, rumo aos abismos, dos salários, dos empregos, da moeda e de todo o resto.

A Alemanha, enlouquecida pelo desmoronamento geral, desatou a caça aos culpados: os judeus, os comunistas, os homossexuais, os ciganos, os débeis mentais e os que tinham a mania de pensar além da conta.

Dia 29 - Silenciando, digo


Hoje nasceu Anton Tchékhov, em 1860.

Escreveu como quem não diz nada.

E disse tudo.

Dia 28 - Para que você leia o mundo


Quando a letra impressa ainda não existia, o imperador Carlos Magno formou amplas equipes de copistas, que criaram em Aachen a melhor biblioteca da Europa.

Carlos Magno, que tanto ajudou a ler, não sabia ler. 
 
E morreu analfabeto, no começo do ano 814.

Dia 27 - Para que você escute o mundo


Hoje nasceu, em 1756, Wolfgang Amadeus Mozart.

Séculos depois, até os bebês amam a música que ele nos deixou.

Está comprovado, muitas vezes e em muitos lugares, que o recém-nascido chora menos e dorme mais quando escuta a música de Mozart.

É a melhor maneira de dizer bem-vindo ao mundo, a melhor forma de dizer:
– Esta é a sua casa nova. Ela soa assim.

Dia 26 - Segunda fundação da Bolívia


No dia de hoje do ano de 2009, um plebiscito popular disse sim à nova Constituição proposta pelo presidente Evo Morales.

Até este dia, os índios não eram filhos da Bolívia: eram sua mão de obra, e só.

Em 1825, a primeira Constituição outorgou a cidadania a três ou quatro por cento da população. Os demais – índios, mulheres, pobres, analfabetos – não foram convidados para a festa.

Para muitos jornalistas estrangeiros, a Bolívia é um país ingovernável, incompreensível, intratável, inviável. São os que se enganaram de in: deveriam confessar que a Bolívia, para eles, é um país invisível. E não há nada de estranho nisso, porque até o dia de hoje também a Bolívia foi um país cego de si.

Dia 25 - O direito à picardia


O povo da Nicarágua celebra o Güegüence, e ri junto com ele.

Nesses dias, dias da sua festa, as ruas se transformam em palcos onde esse pícaro conta, canta e dança, e por sua obra e graça todos se transformam em contadores, cantadores e bailadores.

O Güegüence é o pai do teatro de rua na América Latina.

Desde o princípio dos tempos coloniais, ele vem ensinando as artes de mestre enrolador:
– Quando você não conseguir ganhar, empate. E quando não conseguir empatar, enrole.
 
E desde aquele então, de século em século, o Güegüence não parou de se fazer de bobo, inventador de palavras que não significam nada, mestre de diabruras que o próprio Diabo inveja, desumilhador de humilhados, brincalhão, brincante, brincadeiro.

Dia 24 - Pai civilizador


Em 1965, morreu Winston Churchill.

Em 1919, quando presidia o British Air Council, havia oferecido uma de suas frequentes lições da arte da guerra:

Não consigo entender tantos melindres sobre o uso do gás. Estou muito a favor do uso de gás venenoso contra as tribos incivilizadas. Isso teria um bom efeito moral e difundiria um terror perdurável.

E em 1937, falando diante da Palestine Royal Commission, havia oferecido uma de suas frequentes lições de história da humanidade:

Eu não admito que se tenha feito mal algum aos peles-vermelhas da América, nem aos negros da Austrália, quando uma raça mais forte, uma raça de melhor qualidade, chegou e ocupou seu lugar.

Dia 23 - Mãe civilizadora


Em 1901, no dia seguinte ao último suspiro da rainha Vitória, começaram em Londres suas solenes pompas fúnebres.

A organização não foi fácil. Merecia uma grande morte essa rainha que havia dado nome a toda uma época e tinha deixado exemplo de abnegação feminina vestindo luto, durante quarenta anos, em memória de seu falecido marido.

Vitória, símbolo do império britânico, dona e senhora do século XIX, havia imposto o ópio na China e a vida virtuosa em sua nação.

No centro de seu império, eram leitura obrigatória as obras que ensinavam a respeitar as boas maneiras. O Livro de etiqueta, de Lady Gough, publicado em 1863, desenvolvia alguns mandamentos sociais da época: era preciso evitar, por exemplo, a intolerável proximidade dos livros de autores com os livros de autoras nas prateleiras das bibliotecas.

Os livros só podiam se juntar se o autor e a autora estivessem unidos em matrimônio, como era o caso de Robert e Elizabeth Barrett Browning.

Dia 22 - A mudança de um reino


Neste dia de janeiro de 1808, chegaram à costa do Brasil, sem pão e sem água, os extenuados navios que dois meses antes haviam partido de Lisboa.
 
Napoleão pisoteava o mapa da Europa, e já estava atravessando a fronteira de Portugal quando se desatou a correria: a corte portuguesa, obrigada a mudar de domicílio, marchava rumo ao trópico.
 
A rainha Maria encabeçou a mudança. E atrás dela foram o príncipe e os duques, condes, viscondes, marqueses e barões, com as perucas e as roupas faustosas que mais tarde foram herdadas pelo carnaval do Rio de Janeiro. E atrás, amontoados no desespero, vinham sacerdotes e chefes militares, cortesãs, costureiras, médicos, juízes, tabeliães, barbeiros, escrivães, sapateiros, jardineiros...
 
A rainha Maria não andava lá muito boa da cabeça, para não dizer que estava louca de pedra, mas foi ela que pronunciou a única frase lúcida que se ouviu no meio daquele manicômio:
– Não corram tanto, que vai parecer que estamos fugindo!

domingo, 20 de janeiro de 2019

Dia 21 - Eles caminhavam sobre as águas


No ano de 1779, o conquistador inglês James Cook assistiu a um espetáculo muito estranho, na ilha do Havaí.

Era uma diversão tão perigosa quanto inexplicável: na baía de Kealakekua, os nativos se divertiam ficando de pé sobre as ondas e deixando-se levar.

Terá sido Cook o primeiro espectador do esporte que agora chamamos de surf?

Talvez se tratasse de algo mais que isso. Talvez houvesse algo mais nesse ritual das ondas. Afinal, aqueles primitivos acreditavam que a água, mãe de todas as vidas, era sagrada, mas não se ajoelhavam nem se inclinavam diante de sua divindade.

Sobre o mar caminhavam, em comunhão com sua energia.

Três semanas mais tarde, Cook foi apunhalado por aqueles caminhantes da água.

O generoso navegante, que havia dado a Austrália de presente à coroa britânica, ficou na vontade de dar o
Havaí.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 20 - Sagrada serpente


Em 1585, em seu terceiro concílio, os bispos do México
proibiram que fossem pintadas ou esculpidas serpentes nos muros das igrejas, nos retábulos e nos altares.

Naquela altura, os extirpadores da idolatria já haviam advertido que esses instrumentos do Demônio não provocavam repulsão nem espanto entre os índios.

Os pagãos adoravam as serpentes. As serpentes haviam sido desprestigiadas, na tradição bíblica, desde aquela questão da tentação de Adão, mas a América era um serpentário carinhoso.

O ondulante réptil anunciava as boas colheitas, raio que chamava a chuva, e em cada nuvem vivia uma serpente de água.

E era uma serpente emplumada o deus Quetzalcóatl, que se foi pelos caminhos da água.


Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

sábado, 19 de janeiro de 2019

Gastam mais pra fazer guerras do que na promoção da paz



As grandes potências mundiais, continuam, ano após ano, investindo valores altíssimos de seus recursos para promoverem guerras contra as nações menos poderosas.

Pra que tantas guerras? Pra roubar, pra matar, pra oprimir e escravizar.
 
Na foto: Bombas que custam 100 mil dólares, lançadas por um avião que custa 100 milhões, que voa com um custo de 40 Mil dólares por hora, para matar pessoas que vivem com menos de um dólar por dia.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Dia 19 - Uma era nasceu com ele


Em 1736, nasceu o escocês James Watt.

Dizem que ele não inventou a máquina a vapor, mas em todo caso foi ele quem soube desenvolvê-la, sem maiores pretensões, e numa oficina modesta engendrou a fonte de energia da revolução industrial.

A partir de então, daquela máquina nasceram outras máquinas, que transformaram os camponeses em operários, e num ritmo de vertigem o dia de hoje se fez amanhã e o dia de ontem foi mandado para a pré-história.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 18 - Água sagrada


Nos tempos da Santa Inquisição, os espanhóis que tomavam banho eram suspeitos de heresia muçulmana.

A adoração da água vinha de Maomé.

Maomé havia nascido no deserto, lá pelo ano de 570, e no
deserto, reino da sede, havia fundado a religião dos perseguidores da água.

Ele dizia o que Deus, chamado de Alá, tinha mandado dizer: no caminho da salvação, era preciso rezar cinco vezes por dia, flexionando o corpo até que o queixo tocasse o solo, e antes de cada reza era preciso se purificar com água.

– A limpeza é a metade da fé – dizia.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 17 - O homem que fuzilou Deus

 
Em 1918, em Moscou, em plena efervescência revolucionária, Anatoli Lunacharski encabeçou o tribunal que julgou Deus.

Uma Bíblia foi sentada no banco dos réus.
Segundo o promotor, Deus havia cometido, ao longo da
história, numerosos crimes contra a humanidade. O advogado da defensoria pública alegou que Deus era inimputável, porque padecia de demência grave; mas o tribunal o condenou à morte.

No amanhecer do dia de hoje, cinco rajadas de metralhadora foram disparadas contra o céu.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 16 - A proibição é a melhor publicidade


Hoje, em 1920, o Senado dos Estados Unidos aprovou a Lei Seca.

Graças à Lei Seca floresceram a fabricação e o consumo das bebidas proibidas, e Al Capone e sua turma mataram e ganharam mais que nunca.

Em 1933, o general Smedley Butler, que havia comandado os marines dos Estados Unidos ao longo de dezesseis condecorações, confessou que o êxito de Al Capone em Chicago havia influenciado a sua rapaziada em três continentes.

Dia 15 - O sapato


Em 1919, a revolucionária Rosa Luxemburgo foi assassinada em Berlim.

Ela foi arrebentada a coronhadas de fuzil pelos assassinos, e depois jogada nas águas de um canal.

No caminho, perdeu um sapato.

Alguém recolheu esse sapato, jogado no barro.

Rosa queria um mundo onde a justiça não fosse sacrificada em nome da liberdade, nem a liberdade sacrificada em nome da justiça.

Todos os dias, alguém recolhe essa bandeira.

Jogada no barro, como o sapato.

Dia 14 - A maldição haitiana


O terremoto do Haiti havia sido o ponto culminante da longa tragédia de um país sem sombra e sem água, que havia sido arrasado pela voracidade colonial e pela guerra contra a escravidão.

Os amos destronados explicam isso de outra maneira: o vodu tinha e tem a culpa de todas as desgraças. O vodu não merece ser chamado de religião. Não é nada além de uma superstição vinda da África, magia negra, coisa de negros, coisa do Diabo.

A Igreja católica, onde não faltam fiéis capazes de vender unhas de santos e plumas do arcanjo Gabriel, conseguiu que essa superstição fosse legalmente proibida no Haiti em 1845, 1860, 1896, 1915 e 1942.

Nos últimos tempos, o combate contra a superstição corre por conta das seitas evangélicas. As seitas vêm do país de Pat Robertson: um país que não tem 13o andar em seus edifícios nem fileira 13 em seus aviões, e onde são maioria os civilizados cristãos que acreditam que Deus fabricou o mundo em uma semana.

Dia 13 - Terra que grita


No ano de 2010, um terremoto engoliu boa parte do Haiti e deixou mais de duzentos mil mortos.

No dia seguinte, Pat Robertson, telepastor evangélico, explicou lá dos Estados Unidos: o pastor de almas revelou que os negros haitianos eram os culpados pela sua liberdade.

O Diabo, que os havia libertado da França, estava mandando a conta.

Dia 12 - A urgência de chegar


Nesta manhã do ano de 2007, um violinista deu um concerto numa estação de metrô da cidade de Washington.

Apoiado na parede, perto de um cesto de lixo, o músico, que mais parecia um rapaz do bairro, tocou obras de Schubert e outros clássicos, durante três quartos de hora.

Mil e cem pessoas passaram sem deter seu passo apressado.

Sete pararam durante pouco mais que um instante. Ninguém aplaudiu. Houve umas crianças que quiseram ficar, mas foram arrastadas pela mãe.

Ninguém sabia que ele era Joshua Bell, um dos virtuosos mais cotados e admirados do mundo.

O jornal The Washington Post havia organizado aquele concerto.

Foi sua maneira de perguntar:
– Você tem tempo para a beleza?

Dia 11 - O prazer de ir


 
Em 1887, nasceu, em Salta, o homem que foi Salta: Juan
Carlos Dávalos, fundador de uma dinastia de músicos e poetas.

Pelo que dizem os dizeres, ele foi o primeiro tripulante de um Ford T, o Ford Bigode, naquelas comarcas do Norte argentino.

Pelos caminhos afora, lá vinha seu Ford T, roncando e
esfumaçando.
Vinha lento. As tartarugas paravam e se sentavam para esperar por ele.

Um vizinho se aproximou. Preocupado, cumprimentou,
comentou:
– Mas, dom Dávalos... Desse jeito, o senhor não vai chegar nunca...
E ele explicou:
– Eu não viajo para chegar. Viajo para ir.

Dia 10 - Distâncias


O automóvel ia tossindo. E aos trambolhões, empilhados dentro do automóvel, viajavam alguns músicos. 

Estavam indo alegrar uma reunião de camponeses, mas já fazia um bom tempo que andavam perdidos pelos caminhos ferventes de Santiago del Estero.
 
Os desorientados não tinham a quem perguntar. Não havia ninguém, não sobrava ninguém naqueles desertos que tinham sido bosques.

E de repente apareceu, numa nuvem de poeira, uma menina de bicicleta.
– Falta quanto? – perguntaram a ela.
 
E ela disse:
– Falta menos.
E foi-se embora na poeira.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Dia 8 - Não digo adeus


Em 1872, por ordem do presidente do Equador, Manuela León foi fuzilada.

Em sua sentença, o presidente chamou Manuela de Manuel, para não deixar registro de que um cavalheiro como ele estava mandando uma mulher para o paredão, embora fosse uma índia bruta.

Manuela havia alvoroçado terras e povoados e havia alçado a indiada contra o pagamento de tributos e contra o trabalho servil.

E como se tudo isso fosse pouco, havia cometido a insolência de desafiar para um duelo o tenente Vallejo, oficial do governo, diante dos olhos atônitos dos soldados, e em campo aberto a espada dele tinha sido humilhada pela lança dela.

Quando este último dia chegou, Manuela enfrentou o pelotão de fuzilamento sem venda nos olhos. E perguntada se tinha algo a dizer, respondeu, em sua língua:
– Manapi.
Nada.

Dia 7 - A Neta


Soledad, a neta de Rafael Barrett, costumava recordar uma frase do avô:
– Se o Bem não existe, é preciso inventá-lo.

Rafael, paraguaio por escolha própria, revolucionário por vocação, passou mais tempo na cadeia que em casa, e morreu no exílio.

A neta foi crivada a balas no Brasil, no dia de hoje de 1973.

O cabo Anselmo, marinheiro insurgente, chefe revolucionário, foi quem a entregou.

Cansado de ser perdedor, arrependido de tudo o que acreditava e gostava, ele delatou um por um seus companheiros de luta contra a ditadura militar brasileira, e os despachou para o suplício ou o matadouro.

Soledad, que era sua mulher, ele deixou para o fim.

O cabo Anselmo apontou o lugar onde ela se escondia e foi-se embora.

Já estava no aeroporto quando ouviram-se os primeiros tiros.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Dia 6 - Terra que espera


No ano de 2009, a Turquia devolveu a nacionalidade negada a Nazim Hikmet e reconheceu, finalmente, que era turco seu poeta mais amado e mais odiado.

Ele não pôde ser informado da boa-nova: tinha morrido, fazia meio século, no exílio, onde havia passado a maior parte da sua vida.

Sua terra esperava por ele, mas seus livros estavam proibidos, e ele também.

O desterrado queria voltar:
Ainda me restam coisas para fazer.
Me reuni com as estrelas, mas não consegui contá-las.
Tirei água do poço, mas não pude oferecê-la.

Não voltou jamais.

Do livro de Eduardo Galeano - OS FILHOS DOS DIAS

Dia 5 - Terra que diz


George Carver sonhou com Deus.
– Peça o que quiser – Deus oferecia.
Carver pediu que lhe revelasse os segredos do amendoim.
– Pergunte ao amendoim – disse Deus.

George, filho de escravos, dedicou a vida à ressurreição de terras assassinadas pelas plantações escravistas.

Em seu laboratório, que parecia cozinha de alquimista, elaborou centenas de produtos derivados do amendoim e da batatadoce: óleo, queijo, manteiga, molhos, maionese, sabões, colorantes, tintas, melaço, colas, talco...

– Quem conta são as plantas – explicava. – Elas oferecem tudo a quem souber ouvir o que dizem.

Quando morreu, no dia de hoje de 1943, tinha mais de oitenta anos e continuava divulgando receitas e conselhos, e dava aulas numa universidade estranha, que tinha sido a primeira a admitir estudantes negros no Alabama.

Dia 4 - Terra que chama


Hoje nasceu, em 1643, Isaac Newton.

Pelo que se sabe, Newton jamais teve amantes ou amantas.

Morreu virgem, tocado por ninguém, apavorado pela ameaça de contágios e fantasmas.

Mas esse senhor medroso teve a coragem de investigar e revelar o movimento dos astros, a composição da luz, a velocidade do som, a condução do calor e a lei da gravidade, essa irresistível força de atração da terra que nos chama, e nos chamando nos recorda nossa origem e nosso destino.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Meu sentimento é de Tristeza e Indignação


Não há como negar ou tentar minimizar o impacto da perda de uma vida humana, especialmente quando se trata de alguém tão especial, com a qual aprendemos a conviver e conhecer o que de melhor existia em sua personalidade.

Estar na última despedida e ver o sofrimento de familiares e amigos, causa uma dor e um profundo sentimento de impotência diante de toda a trágica situação.

Sou alguém que já experimentou duras perdas, entre elas as mais significativas que foi meu pai e minha mãe e, há tempos não sentia esse gosto amargo de um adeus que só pode ser dado em pensamentos.

Quem teve a oportunidade de conviver com Mônica, sabe o quanto era uma pessoa maravilhosa e cheia de vida e o quanto sua presença fazia bem a todos(as).

A tristeza de sua partida inesperada e repentina, só poderá ser substituída pelas recordações dos melhores momentos dela entre nós.

Uma fatalidade que não é fruto do destino, nem tampouco vontade de Deus, como escutei de algumas pessoas, que com toda boa vontade, tentam consolar aos que choram.

A explicação de uma bactéria que causou infecção generalizada, poderia por fim ao assunto e colocar um ponto final, como que uma explicação para a inoportuna fatalidade.

No entanto, me disponho a fazer algumas breves reflexões ou indagações (a partir das informações que me chegaram), sem querer atribuir culpa ou responsabilidade a quem quer que seja.

Me pergunto se nos primeiros atendimentos hospitalar recebidos, houvesse tido um caráter mais investigativo das causas prováveis diante dos sintomas apresentados: dores fortes, vômito, diarréia, febre alta. Se não haveria alguma chance de salvar sua vida?

Me pergunto se na estrutura hospitalar houvesse laboratório e equipamentos adequados a exames de urgência, que pudessem identificar o grau da infecção. Se não haveria alguma chance de salvar sua vida?

Me pergunto se na unidade hospitalar local, assim como em Arcoverde (para onde foi encaminhada), houvesse um médico cirurgião de plantão. Se não haveria alguma chance de salvar sua vida?

Me pergunto, ao final, qual o valor que tem uma vida humana? Porque Mônica, assim como outras Mônicas por esse país afora, não tiveram a sua disposição as condições adequadas para um atendimento qualificado. Se não haveria alguma chance de salvar sua vida?

Indignação é o sinônimo dessa sensação de medo e impotência, que o sistema público de saúde causa a todos nós num momento como esse.

Reitero, não estou atribuindo culpa ou responsabilidade a ninguém individualmente, más a um sistema, que se não for revisto e reestruturado, causará dor e mais dor, para inúmeras famílias.

Meu desejo apenas, é de que houvesse uma estrutura de saúde pública adequada a salvar vidas, ou a pelo menos dar uma chance/esperança de que não se percam vidas tão jovens e tão valiosas.

O bem mais precioso no mundo é a vida humana, para a preservação da qual, não deveria haver limites, dificuldades ou obstáculos.

É o que penso!    

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Dia 3 - A memória andante


No terceiro dia do ano 47 a.C., ardeu em chamas a biblioteca mais famosa da Antiguidade.

As legiões romanas invadiram o Egito, e durante uma das batalhas de Júlio César contra o irmão de Cleópatra o fogo devorou a maior parte dos milhares e milhares de rolos de papiro da Biblioteca de Alexandria.

Um par de milênios depois, as legiões norte-americanas invadiram o Iraque e, durante a cruzada de George W. Bush contra o inimigo que ele mesmo inventou, virou cinza a maior parte dos milhares e milhares de livros da Biblioteca de Bagdá.

Na história da humanidade inteira, houve um e só um refúgio de livros seguro e à prova de guerras e incêndios: a biblioteca andante, uma ideia do grão-vizir da Pérsia, Abdul Kassem Ismael, no final do século X.

Homem prevenido, esse viajante incansável levava sua biblioteca consigo. Quatrocentos camelos carregavam cento e dezessete mil livros, numa caravana de dois quilômetros de comprimento. Os camelos também serviam de catálogo das obras: cada grupo de camelos carregava os títulos que começavam com uma das trinta e duas letras do alfabeto persa.

Dia 2 - Do fogo ao fogo


Neste dia de 1492 caiu Granada, e com ela caiu a Espanha muçulmana inteira.
 
Vitória da Santa Inquisição: Granada havia sido o último reino espanhol onde as mesquitas, as igrejas e as sinagogas conseguiam ser boas vizinhas.
 
No mesmo ano começou a conquista da América, quando a América ainda era um mistério sem nome.
 
E nos anos seguintes, em fogueiras distantes, o mesmo fogo queimou os livros muçulmanos, os livros hebraicos e os livros indígenas.
 
O fogo era o destino das palavras que nasciam no Inferno.

Do livro de Eduardo Galeano - OS FILHOS DOS DIAS

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Janeiro - Dia 1


Hoje
 
Hoje não é o primeiro dia do ano para os maias, os judeus, os árabes, os chineses e outros muitos habitantes deste mundo.

A data foi inventada por Roma, a Roma imperial, e abençoada pela Roma vaticana, e acaba sendo um exagero dizer que a humanidade inteira celebra esse cruzar da fronteira dos anos.

Mas uma coisa, sim, é preciso reconhecer: o tempo é bastante amável com a gente, seus passageiros fugazes, e nos dá permissão para crer que hoje pode ser o primeiro dos dias, e para querer que seja alegre como as cores de uma quitanda.

Do livro de Eduardo Galeano - OS FILHOS DOS DIAS

Gênesis, de acordo com os maias


E os dias se puseram a andar.
E eles, os dias, nos fizeram.
E assim fomos nascidos nós,
os filhos dos dias,
os averiguadores,
os buscadores da vida.
 
(Gênesis, de acordo com os maias)

Do livro de Eduardo Galeano - OS FILHOS DOS DIAS

Orações Pela Paz no Mundo



ORAÇÃO DOS NATIVOS AFRICANOS PELA PAZ

Deus Todo Poderoso, Grande Polegar que ata todos os nós, Trovão que Ruge e parte as grandes árvores; Senhor que tudo vê até as pegadas do antílope nas rochas, aqui na Terra, Vós sois aquele que não hesita em responder a nosso chamado. Vós sois a pedra angular da Paz.



ORAÇÃO DOS NATIVOS AMERICANOS PELA PAZ

Ó Grande Espírito de nossos Ancestrais, elevo meu cachimbo a Ti. Aos teus mensageiros, os quatro ventos, e à Mãe Terra que alimenta seus filhos. Dê-nos a sabedoria para ensinar nossos filhos a amarem, respeitarem e serem gentis uns com os outros, para que possam crescer com idéias de paz. Que possamos aprender a partilhar as coisas boas que nos ofereces aqui na Terra.

Jesus Cristo


Oração Cristã pela Paz

Benditos são os que fazem a paz, pois eles serão chamados Filhos de Deus. Pois eu lhes digo: ouçam e amem os seus inimigos, façam o bem aos que te odeiam, abençoem aqueles que te maldizem, orem pelos que te humilham.. Aos que te batem no rosto, ofereçam a outra face, e aos que te tiram as vestes, ofereçam também a capa. Dá aos que pedem, e aos que tomam teus bens, não os peça de volta. E façam aos outros aquilo que quiserem que os outros te façam.

Hinduísmo

Oração Hindu pela Paz Mundial


Ó Deus, leva-nos do irreal para o Real.
Ó Deus, leva-nos da escuridão para a luz.
Ó Deus, leva-nos da morte para a imortalidade.
Shanti, Shanti, Shanti a todos.
Ó Senhor Deus Todo-Poderoso que haja paz nas regiões celestiais.
Que haja paz na Terra.
Que as águas sejam apaziguadoras.
Que as ervas sejam nutritivas e que árvores e plantas tragam paz a todos.
Que todos os seres benéficos tragam a paz para nós.
Possa a Lei Védica propagar a Paz por todo o mundo.
Que todas as coisas sejam uma fonte de paz para nós.
E que a tua própria paz conceda a paz a todos.
E que a paz possa vir a mim também.

Budismo

Oração Budista pela Paz Mundial

Que todos os seres em todos os lugares, afligidos por sofrimentos do corpo e da mente, sejam logo libertados de suas enfermidades.
Que aqueles assustados deixem de ter medo
E aqueles vinculados possam ser livres.
Que o impotente encontre força,
E as pessoas possam pensar em fazer amizade um com outro.
Que aqueles que se encontram sem rumo,
Em desertos de medo - as crianças, os idosos, os desprotegidos - sejam guardados
por seres celestiais benéficos, e que eles possam rapidamente atingir o estado de

Buda.

Zoroastrianismo

Oração Zoroastriana pela Paz Mundial

Oramos a Deus para erradicar toda a miséria no mundo:
Que a compreensão triunfe sobre a ignorância,
Que a generosidade triunfe sobre a indiferença,
Que a confiança triunfe sobre o desprezo, e
Que a verdade triunfe sobre a mentira.

Jainismo

Oração Jainist pela Paz Mundial

Paz e Amor Universal são a essência do Evangelho pregado por todos os Seres
Iluminados.
O Senhor tem pregado que a equanimidade é o Dharma.
Perdoem-me, todas as criaturas, e deixe que todas as criaturas me perdoem.
Por todos tenho amizade e por nenhum tenho inimizade.
Saiba que a violência é a causa raiz de todas as misérias do mundo.
Violência na verdade, é o nó da escravidão.
"Não ofenda nenhum ser vivo."
Este é o caminho eterno, perene e inalterável da vida espiritual.
Uma arma, por mais poderosa que seja, pode sempre ser substituída por uma
superior, mas nenhuma arma pode, contudo, ser superior à não-violência e ao amor.

Judaismo

Oração Judaica pela Paz Mundial

Deixe-nos subir a montanha do Senhor, para que possamos trilhar os caminhos do
mais alto.
E vamos parar de lutar e começar a viver em paz.
As nações não levantarão a espada contra outra nação - nem devem mais aprender a
guerra.
E ninguém deve ter medo, porque a boca do Senhor dos exércitos falou.

Islamismo

Oração Maometana pela Paz

Em nome de Allah, o benéfico, o misericordioso. Graças ao Senhor do Universo que nos criou e distribuiu em tribos e nações, que possamos nos conhecer, sem desprezarmo-nos uns aos outros. Se o inimigo se inclina para paz, inclina-te tu também para a paz, e confia em Deus, Cheios de Graça são aqueles que andam sobre a Terra em humildade, e quando dirigimo-nos a eles dizemos "PAZ".




Oração Sikh pela Paz

"Deus nos julga segundo nossas ações, não de acordo com o traje que nos cobre: a verdade está acima de tudo, mas ainda mais alto está o viver em verdade. Saibam que atingimos a Deus quando amamos, e a única vitória que perdura é aquela que não deixa nenhum derrotado."


Oração Dahai pela Paz


Seja generoso na prosperidade e grato na adversidade. Seja justo ao julgar e comedido ao falar. Seja uma luz para aqueles que caminham na escuridão, e um lar para o forasteiro. Seja os olhos para o cego e um guia para os errantes. Seja um sopro de vida para o corpo da humanidade, orvalho para o solo do coração dos homens, e seja a fruta da árvore da humildade.

Oração Hintoísta pela Paz

Embora as pessoas que vivem do outro lado do oceano que nos rodeia, eu creio, sejam todas nossos irmãos e irmãs, porque há sempre tribulação neste mundo? Porque os ventos e as ondas se levantam no oceano que nos circunda? Desejo de todo coração que o vento logo leve embora todas as nuvens que pairam sobre os picos das montanhas.

Oração Parse pela Paz

Oramos a Deus pra erradicar toda a miséria do mundo: que a compreensão triunfe sobre a ignorância, que a generosidade triunfe sobre a indiferença, que a confiança triunfe sobre o desprezo, e que a verdade triunfe sobre a falsidade.