PONTO DE PARTIDA

PONTO DE PARTIDA

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Dia 1 de março - Foi


Elisa Lynch estava cavando a tumba com as unhas.

Os soldados vencedores, atônitos, deixavam.

Os arranhões daquela mulher erguiam nuvens de pó vermelho e sacudiam a madeixa avermelhada que chovia sobre seu rosto.

Solano López jazia ao seu lado.
Ela, mutilada dele, não chorava por ele, não olhava para ele: ia atirando terra em cima de seu corpo, inúteis punhados que queriam enterrá-lo na terra que havia sido a sua terra.

Já não havia ele, já não havia Paraguai.
Cinco anos havia durado a guerra.


Havia caído, assassinado, o único país latino-americano que negava obediência aos banqueiros e mercadores.

E enquanto Elisa continuava jogando punhados de terra sobre o homem que havia sido o seu homem, o sol se ia, e com o sol se ia esse maldito dia do ano de 1870.

Da mata do morro chamado de Cerro Corá, uns poucos pássaros lhe diziam adeus.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 29 de fevereiro (quando fevereiro é de 29) - O vento não levou


O dia de hoje tem o costume de fugir dos calendários, mas volta a cada quatro anos.

É o dia mais estranho do ano.

Mas esse dia não teve nada de estranho em Hollywood, em 1940.Com toda normalidade, em 29 de fevereiro Hollywood outorgou quase todos os seus prêmios, oito Oscar, a O vento levou, que era um longo suspiro de nostalgia pelos bons tempos da escravidão perdida.


E assim Hollywood confirmou seus hábitos. Vinte e cinco anos antes, seu primeiro supersucesso, O nascimento de uma nação, havia sido um hino de louvor ao Ku Klux Klan.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 28 de fevereiro - Quando


Quando estava descendo pela escada em caracol de um navio, pensou que bem que podia ser que as moléculas das proteínas viajassem daquele jeito, em espiral e sobre solo ondulado; e isso acabou virando um achado científico.

Quando descobriu que os automóveis tinham a culpa do muito que ele tossia na cidade de Los Angeles, inventou o automóvel elétrico, que foi um fracasso comercial.

Quando ficou doente dos rins, e viu que os remédios não adiantavam nada, se receitou comida saudável e bombardeios de vitamina C. E se curou.

Quando explodiram as bombas em Hiroshima e Nagasaki, foi convidado para dar uma conferência científica em Hollywood, e quando percebeu que não havia dito o que queria dizer, passou a encabeçar a campanha mundial contra as armas nucleares.

Quando recebeu o prêmio Nobel pela segunda vez, a revista Life disse que aquilo era um insulto. Em duas ocasiões o governo dos Estados Unidos já o havia deixado sem passaporte, porque era suspeito de simpatias comunistas, ou porque havia dito que Deus era uma ideia não necessária.

Ele se chamava Linus Pauling. Nasceu enquanto nascia o século XX.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Hoje é dia de Diego Andrade da Paixão, meu primeiro filho


DIEGO ANDRADE DA PAIXÃO, meu primeiro filho.

Há exatos 30 anos, em 27 de fevereiro de 1989 às 12:35 horas, em Caruaru/PE, nascia meu primeiro filho Diego Andrade.

Quero parabenizá-lo do mais profundo dos meus sentimentos e expressar o amor que sinto. Desejando-lhe que continue trilhando sempre o caminho do bem, que continue tendo atenção especial por sua mãe e busque realizar seus sonhos.

Apesar da distância geográfica (que me impede muitas vezes de estar mais próximo), saiba meu filho que és uma das maiores razões de me manter acreditando na vida.

Um pouco da história

Quando o Diego nasceu eu já estava em meio à luta no Movimento Sindical e no Partido dos Trabalhadores de Caruaru. Estávamos já em discussão para a participação da histórica Greve Geral contra o Governo de José Sarney, que veio a acontecer em 14 e 15 de março de 1989.

O nascimento de Diego, me trouxe uma grande emoção, pela primeira vez (aos vinte e um anos de idade) eu estava vivendo a experiência de ser pai, em meio às lutas sociais que caracterizam grande parte de minha história de vida.

Quando o segurei em meus braços, na manhã do dia posterior ao seu nascimento (oportunidade em que fui buscá-lo no hospital junto com sua mãe) senti uma alegria diferente e tive a consciência de que minha responsabilidade (a partir daquele momento) passaria a ser maior.

Na noite do dia 28, dei-lhe o nome de Diego. Eu já estava mergulhado na história das lutas populares da América Latina e o nome Diego me caiu bem, por ser um nome latino muito forte.

De característica calma, muito inteligente e de mente aberta é motivo de grande orgulho pra mim e uma das razões mais fortes, que me motivou a enfrentar vários desafios.

Significado do nome:
Diego: Significa “aquele que doutrina”, “conselheiro”; “aquele que vem do calcanhar”.
Diego é um nome de origem espanhola, no entanto possui sua raiz etimológica duvidosa ou incerta.
Algumas fontes o relacionam com o latim didacus, que deriva do grego didache e que quer dizer “doutrina” ou “ensino”. Assim, o nome Diego tem o significado de “aquele que doutrina”, “aquele que ensina”. 

Em 17 de fevereiro, há 38 anos, o primeiro e mais duro impacto em minha vida

João Francisco da Paixão - Meu pai

No dia 17 de fevereiro de 1981, há 38 anos, acordávamos em casa, aos gritos de pedidos de socorro de minha mãe.

Na porta do quarto aonde dormíamos eu e minha irmã, a imagem de meu pai caído de joelhos, segurado por minha mãe. Era por volta das 5 horas da manhã.

Em seguida, alguns vizinhos foram chegando, deitaram ele na cama e vi os últimos suspiros da pessoa a qual eu era mais apegado, meu pai.

Eu era um menino de apenas 13 anos, enfrentando naquele instante a maior perda, a maior dor, o maior sentimento de tristeza. O primeiro e mais duro impacto em minha vida.

Ao completar estes 38 anos, ainda sinto sua falta e a tristeza de não ter podido realizar o sonho de andar com ele já velhinho, de cabelos brancos, retribuindo o carinho com o qual me tratava.



Quem era meu pai
João Francisco da Paixão, pernambucano, natural de Panelas, município do agreste do estado de Pernambuco, nascido em 07 de setembro de 1922, filho de uma família de agricultores. Seu pai era Libanio Francisco da Paixão e sua mãe Mariana Francisca da Conceição.

Cor: pardo-claro, olhos castanhos, cabelos castanhos lisos, medindo 1,68 mt de altura (assim consta nos seus documentos).

Profissão: agricultor, depois pedreiro, comerciante e sapateiro.

Falecido a 17 de fevereiro de 1981 às 05h00min, com 58 anos de idade.

Era um homem tranqüilo, muito sério, era carinhoso com minha mãe praticamente todo o tempo. Ele a chamava de minha filha e Ela o chamava de meu filho. Quando havia alguma discordância entre eles, era de uma forma tão discreta que eu e minha irmã não percebíamos.

Pouquíssimas foram às vezes que o vi chateado ou irritado com algo.

Tinha uma forma muito carinhosa de me tratar. Chamava-me de “mano” e sempre me levava quando ia à rua fazer compras ou na feira. Chegando à feira ele sempre falava pra eu escolher um boneco de barro ou então comprar um gibi nas bancas de revista.

Foi assim que dos 7 aos 9 anos desenvolvi a leitura, lendo gibis de aventura e infantis.

Eu era muito apegado a ele, era tudo pra mim, eu o acompanhava pra todo canto, quando ele saia sem mim e demorava a chegar eu ficava tenso e só sossegava quando o avistava chegando em casa.


Saudades sentirei, por toda minha existência...

Dia 27 de fevereiro - Os bancos também são mortais


Todo verdor perecerá, havia anunciado a Bíblia.

Em 1995, o Banco Barings, o mais antigo da Inglaterra, entrou em bancarrota. Uma semana depois, foi vendido pelo preço total de uma (1) libra.

Esse banco havia sido o braço financeiro do império britânico.

A independência e a dívida externa nasceram juntas na América Latina. Todos nós nascemos devendo. Em nossas terras, o Banco Barings comprou países, alugou próceres, financiou guerras.

E se achou imortal.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 26 de fevereiro - África minha


No final do século XIX, as potências coloniais europeias se reuniram, em Berlim, para repartir a África.

Foi longa e dura a luta pelo butim colonial, as selvas, os rios, as montanhas, os solos, os subsolos, até que as novas fronteiras fossem desenhadas e no dia de hoje de 1885 fosse assinada, em nome de Deus Todo-Poderoso, a Ata Geral.

Os amos europeus tiveram o bom gosto de não mencionar o ouro, os diamantes, o marfim, o petróleo, a borracha, o estanho, o cacau, o café e o óleo de palmeira, proibiram que a escravidão fosse chamada pelo seu nome, chamaram de sociedades filantrópicas as empresas que proporcionavam carne humana ao mercado mundial, avisaram que atuavam movidos pelo desejo de favorecer o desenvolvimento do comércio e da Civilização, e, caso houvesse alguma dúvida, explicaram que atuavam preocupados em aumentar o bem-estar moral e material das populações indígenas.

Assim a Europa inventou o novo mapa da África.

Nenhum africano compareceu, nem como enfeite, a essa reunião de cúpula.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 25 de fevereiro - A noite kuna


O governo do Panamá havia ordenado, por lei, a redução à vida civilizada das tribos bárbaras, semibárbaras e selvagens que existem no país.

E seu porta-voz havia anunciado:
– As índias kunas nunca mais pintarão o nariz mas sim as faces, e já não usarão argolas no nariz mas sim nas orelhas. E já não vestirão molas mas sim vestidos civilizados.
E elas e eles foram proibidos de sua religião e de suas cerimônias, que ofendiam Deus, e a sua tradicional mania de se governar ao seu modo e maneira.

Em 1925, na noite do dia 25 do mês das iguanas, os kunas passaram à faca todos os policiais que os proibiam de viver sua vida.

Desde então, as mulheres kunas continuam usando argolas nos narizes pintados, e continuam vestindo suas molas, esplêndida arte de uma pintura que usa agulha e linha em vez de pincel. E elas e eles continuam celebrando suas cerimônias e suas assembleias, nas duas mil ilhas onde defendem, por bem ou por mal, seu reino compartilhado.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 24 de fevereiro - Uma lição de realismo


Em 1815, Napoleão Bonaparte fugiu de sua prisão na ilha de Elba e fez a viagem de reconquista do trono da França.

Marchava passo a passo, acompanhado por uma tropa crescente, enquanto o jornal Le Moniteur Universel, que havia sido seu órgão oficial, assegurava que os franceses estavam loucos de vontade de morrer defendendo o rei Luís XVIII, e chamava Napoleão de violador à mão armada do solo da pátria, estrangeiro fora da lei, usurpador, traidor, praga, chefe de bandoleiros, inimigo da França que ousa sujar o solo do qual foi expulso, e anunciava: Este será seu último ato de loucura.
No final o rei fugiu, ninguém morreu por ele, e Napoleão sentou-se no trono sem disparar um único tiro.

Então o mesmo jornal passou a informar que a feliz notícia da entrada de Napoleão na capital provocou uma explosão súbita e unânime, todo mundo se abraça, os vivas ao Imperador enchem o ar, em todos os olhos há lágrimas de alegria, todos celebram o regresso do herói da França e prometem à Sua Majestade o Imperador a mais profunda submissão.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 23 de fevereiro - O livro dos prodígios


Num dia destes, o de 1455, saiu à luz a Bíblia, o primeiro livro impresso na Europa com tipografia móvel.

Os chineses vinham imprimindo livros fazia dois séculos, mas foi Johannes Gutenberg quem iniciou a difusão massiva do mais apaixonante romance da literatura universal.

Os romances contam mas não explicam, não têm por que explicar. A Bíblia não diz qual a dieta que Noé seguiu para chegar ao Dilúvio com seiscentos anos de idade, nem qual foi o método que a mulher de Abraão usou para ficar grávida aos noventa, nem esclarece se a burra de Balaã, que discutia com seu amo, sabia falar hebraico.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

NOTA DO SITE: a publicação desse texto segue com respeito a fidelidade do conteúdo escrito e publicado pelo autor, sem levar em consideração os aspectos religiosos ou sagrados que o tema enseja.

Dia 22 de fevereiro - O silêncio


Em Istambul, que naquele tempo se chamava Constantinopla, Paulo, o Silenciário, concluiu seus quinze poemas de amor no ano de 563.

Esse poeta grego devia seu nome ao trabalho que cumpria.

Ele cuidava do silêncio no palácio do imperador Justiniano.

Em seu próprio leito, também.

Um dos poemas diz: Teus peitos contra meu peito, teus lábios em meus lábios.

O resto é silêncio: eu odeio a boca que jamais se fecha.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 21 de fevereiro - O mundo encolhe


Hoje é o dia das línguas maternas.

A cada duas semanas, morre um idioma.

O mundo diminui quando perde seus humanos dizeres, da mesma forma que encolhe quando perde a diversidade de suas plantas e bichos.

Em 1974, morreu Ângela Loij, uma das últimas indígenas onas da Terra do Fogo, lá no fim do mundo; e a última que falava a sua língua.

Ângela cantava sozinha, cantava para ninguém, nessa língua que ninguém mais lembrava:
Vou andando pelas pegadas daqueles que já se foram.
Estou perdida.

Nos tempos idos, os onas adoravam vários deuses. O deus supremo se chamava Pemaulk.

Pemaulk significa palavra.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 20 de fevereiro - Dia da Justiça Social


No final do século XIX, Juan Pío Acosta morava na fronteira uruguaia com o Brasil.

Seu trabalho o obrigava a ir e vir, de povoado em povoado, através daquelas solidões.

Viajava numa carroça puxada a cavalos, junto a oito passageiros de primeira, segunda e terceira classe.

Juan Pío comprava sempre passagem de terceira, que era a mais barata.

Nunca entendeu por que havia preços diferentes. Todos viajavam da mesma forma, os que pagavam mais e os que pagavam menos: apertados uns contra os outros, mordendo pó, sacudidos pelo incessante sacolejar.

Nunca entendeu, até que num dia de inverno a carroça encalhou no barro. E então o manda-chuva ordenou:
– Os da primeira classe, que fiquem onde estão!
– Os de segunda, que desçam!
– E os de terceira, que empurrem!

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 19 de fevereiro - Pode ser que Horacio Quiroga tivesse contado assim sua própria morte:


Hoje, morri.
No ano de 1937, fiquei sabendo que tinha um câncer incurável.

E soube que a morte, que me perseguia desde sempre, havia me encontrado.

Eu enfrentei a morte, cara a cara, e disse a ela:
– Acabou esta guerra.
E disse a ela:
– A vitória é sua.
E disse a ela:
– Mas o quando é meu.

E antes que a morte me matasse, eu me matei.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Dia 18 de fevereiro - Só dele


Quando Michelangelo ficou sabendo da morte de Francesco, que era seu ajudante e muito mais, arrebentou a marteladas o mármore que estava esculpindo.

Pouco depois, escreveu que aquela morte foi graça de Deus, mas para mim foi grave dano e infinita dor. A graça está no fato de que Francesco, que em vida me mantinha vivo, morrendo me ensinou a morrer sem pena. Mas eu o tive durante vinte e seis anos... Agora não me resta outra coisa que uma infinita miséria. A maior parte de mim foi-se com ele.

Michelangelo jaz em Florença, na igreja da Santa Croce.
Ele e seu inseparável Francesco costumavam sentar-se na
escadaria dessa igreja, para desfrutar dos duelos em que na vasta praça se enfrentavam, aos pontapés e boladas, os jogadores do que agora chamamos de futebol.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Dia 17 de fevereiro - A festa que não houve


Os peões dos campos da Patagônia argentina tinham entrado em greve contra os salários curtíssimos e as jornadas longuíssimas, e o exército foi encarregado de restabelecer a ordem.

Fuzilar cansa. Nesta noite de 1922, os soldados, exaustos de tanto matar, foram ao prostíbulo do porto San Julián, atrás de sua merecida recompensa.

Mas as cinco mulheres que trabalhavam lá bateram a porta no nariz deles, e puseram todos para correr ao grito de assassinos, assassinos, fora daqui!

Osvaldo Bayer guardou seus nomes. Elas se chamavam Consuelo García, Ângela Fortunato, Amália Rodríguez, Maria Juliache e Maud Foster.
As putas. As dignas.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 16 de fevereiro - A Operação Condor


Macarena Gelman é uma das muitas vítimas da Operação Condor, que foi o nome dado ao mercado comum do terror articulado pelas ditaduras militares sul-americanas.

A mãe de Macarena estava grávida dela quando os militares argentinos a mandaram para o Uruguai. A ditadura uruguaia se encarregou do parto, matou a mãe e deu a filha recém-nascida de presente a um chefe de polícia.

Durante a infância inteira, Macarena dormiu atormentada por um pesadelo inexplicável, que se repetia noite após noite: era perseguida por homens armados até os dentes, e acordava
chorando.

O pesadelo deixou de ser inexplicável quando Macarena descobriu a verdadeira história da sua vida. E então ficou sabendo que ela havia sonhado, lá na infância, os pânicos de sua mãe: sua mãe, que a estava modelando no ventre enquanto fugia da caçada militar que acabou alcançando-a e a mandou para a morte.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 15 de fevereiro - Outras crianças roubadas


– O marxismo é a máxima forma da patologia mental – havia
sentenciado o coronel Antonio Vallejo Nájera, psiquiatra supremo na Espanha do generalíssimo Francisco Franco.

Ele havia estudado, nas prisões, as mães republicanas, e havia comprovado que elas tinham instintos criminosos.

Para defender a pureza da raça ibérica, ameaçada pela
degeneração marxista e pela criminalidade materna, milhares de crianças recém-nascidas ou muito pequenas, filhas de pais
republicanos, foram sequestradas e arrojadas aos braços das
famílias devotas da cruz e da espada.

Quem foram essas crianças? Quem são, tantos anos depois?
Não se sabe.

A ditadura franquista inventou documentos falsos, que
apagaram suas pistas, e aplicou a lei do esquecimento: roubou as crianças e roubou a memória.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Dia 14 de fevereiro - Crianças roubadas


Os filhos dos inimigos foram prenda de guerra da ditadura militar argentina, que roubou mais de quinhentas crianças em anos recentes.

Muito mais crianças foram roubadas, porém, e durante muito mais tempo, pela democracia australiana, dentro da lei e debaixo de aplausos do público.

No ano de 2008, o primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd,
pediu perdão aos indígenas que tinham sido despojados de seus filhos durante mais de um século.

As agências estatais e as igrejas cristãs haviam sequestrado as crianças, que foram distribuídas por famílias brancas, para salvá-las da pobreza e da delinquência e para civilizá-las e afastá-las dos hábitos selvagens.

Para branquear os negros, diziam.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 13 de fevereiro - O perigo de brincar


No ano de 2008, Miguel López Rocha, que estava brincando nos arredores da cidade mexicana de Guadalajara, escorregou e caiu no rio Santiago.

Miguel tinha oito anos de idade.
Não morreu afogado.
Morreu envenenado.

O rio contém arsênico, ácido sulfúrico, mercúrio, cromo, chumbo e furano, jogados em suas águas pela Aventis, Bayer, Nestlé, IBM, Dupont, Xerox, United Plastics, Celanese e outras empresas, que em seus países estão proibidas de fazer esse tipo de doação.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 12 de fevereiro - O direito de mamar


Debaixo do teto ondulado da estação de Chengdu, em Sichuan, centenas de jovens chinesas sorriem para a fotografia.

Todas exibem idênticos aventais novos.

Estão todas recém-penteadas, lavadas, passadas.
Estão todas recém-paridas.
Esperam o trem que as levará a Pequim.

Em Pequim, todas darão de mamar a bebês alheios.

Essas vacas leiteiras serão bem pagas e bem alimentadas.

Enquanto isso, muito longe de Pequim, nas aldeias de Sichuan, seus bebês serão amamentados com leite em pó.

Todas dizem que fazem o que fazem por eles para poder pagar a eles uma boa educação.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 11 de fevereiro - Não


Enquanto nascia o ano de 1962, uma desconhecida banda –
duas guitarras, um baixo, uma bateria – gravou em Londres seu primeiro disco.

Os rapazes voltaram para Liverpool e se sentaram para esperar.

Quando já não tinham mais unhas para roer, num dia como hoje receberam a resposta. A Decca Recording Company dizia a eles, com franqueza:
– Não gostamos do seu som.

E sentenciava:
– As bandas de guitarras estão desaparecendo.

Os Beatles não se suicidaram.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 10 de fevereiro - Uma vitória da Civilização


Aconteceu ao norte do rio Uruguai. Sete missões dos
sacerdotes jesuítas foram dadas de presente pelo rei da Espanha ao seu sogro, o rei de Portugal. A oferenda incluía os trinta mil índios guaranis que moravam lá.

Os guaranis se negaram a obedecer, e os jesuítas, acusados de cumplicidade com os índios, foram devolvidos para a Europa.

No dia de hoje de 1756, nas colinas de Caiboaté, foi derrotada a resistência indígena.
Triunfou o exército da Espanha e de Portugal, mais de quatro
mil soldados acompanhados por cavalos, canhões e numerosos
ladrões de terra e caçadores de escravos.
Saldo final, de acordo com dados oficiais:
Indígenas mortos, 1.723.
Espanhóis mortos, 3.
Portugueses mortos, 1.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 9 de fevereiro - Mármore que respira


Afrodite foi a primeira mulher nua na história da escultura grega.

Praxíteles a talhou com a túnica caída aos seus pés, e a cidade de Cós exigiu que ele a vestisse. Mas outra cidade, Cnido, deu-lhe as boas-vindas e ofereceu um templo para ela; e em Cnido viveu a mais mulher das deusas, a mais deusa das mulheres.

Embora estivesse trancada e muito bem custodiada, os guardas não conseguiam evitar a invasão dos loucos por ela.

Num dia como o de hoje, farta de tanto acossamento, Afrodite
fugiu.


Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 8 de fevereiro - A beijação geral


Em 1980 explodiu na cidade brasileira de Sorocaba uma
insólita manifestação popular.

Em plena ditadura militar, uma ordem judicial havia proibido os beijos que atentavam contra a moral pública. A sentença do juiz Manuel Moralles, que castigava esses beijos com cadeia, os descrevia assim:
Beijos há que são libidinosos e, portanto, obscenos, como o beijo no pescoço, nas partes pudendas etc., e como o beijo cinematográfico, em que as mucosas labiais se unem numa insofismável expansão de sensualidade.

A cidade respondeu se transformando num grande beijódromo.

Nunca ninguém se beijou tanto. A proibição multiplicou a vontade, e teve muita gente que só de curiosidade quis conhecer o gostinho do beijo insofismável.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 7 de fevereiro - O oitavo raio


Roy Sullivan, um guarda-florestal da Virgínia, nasceu em 1912, neste dia 7, e sobreviveu a sete raios durante seus setenta anos de vida;
em 1959, um raio arrancou a unha de um dedo de seu pé;
em 1969, outro raio desapareceu com suas sobrancelhas e
seus cílios;
em 1970, outro raio torrou seu ombro esquerdo;
em 1972, outro raio o deixou careca;
em 1973, outro raio queimou suas pernas;
em 1976, outro raio abriu seu tornozelo;
em 1977, outro raio calcinou seu peito e seu ventre.

Mas não caiu do céu o raio que em 1983 abriu sua cabeça.
Dizem que foi uma palavra, ou um silêncio, de mulher.
Dizem.


Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Dia 6 de fevereiro - O grito


Bob Marley nasceu na pobreza, e gravou suas primeiras músicas dormindo no chão do estúdio.

E em poucos anos se fez rico e famoso e dormiu em leito de plumas, abraçado à Miss Mundo, e foi adorado pelas multidões.

Mas nunca se esqueceu de que ele não era apenas ele.

Pela sua voz cantavam o sonoro silêncio dos tempos passados, a festa e a fúria dos escravos guerreiros que durante séculos tinham enlouquecido seus amos ingleses nas montanhas da Jamaica.


Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO 

Dia 5 de fevereiro - A duas vozes


Tinham crescido juntos, o violão e Violeta Parra.

Quando um chamava, a outra ia.

O violão e ela riam, choravam, perguntavam, acreditavam.

O violão tinha um buraco no peito.

Ela também.

No dia de hoje de 1967, o violão chamou e Violeta não foi.

Não foi nunca mais.


Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO 

Dia 4 de fevereiro - A ameaça


Chamava-se Juana Aguilar, mas era chamada de Juana, a Comprida, pelo escandaloso tamanho de seu clitóris.

A Santa Inquisição recebeu várias denúncias de tal excesso criminoso; e no ano de 1803 a Real Audiência da Guatemala mandou que o cirurgião Narciso Esparragosa examinasse a acusada.

Este sábio da anatomia determinou que Juana contrariava a ordem natural, e advertiu que o clitóris podia ser perigoso, como bem se sabia no Egito e em outros reinos do Oriente.


Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO 

Dia 03 de fevereiro - O carnaval abre alas


Em 1899, as ruas do Rio de Janeiro enlouqueceram dançando a música que inaugurou a história do carnaval carioca.

Esse alvoroço debochado se chamava Ó abre alas: um maxixe, invenção musical brasileira, que ria das rígidas danças de salão.

A autora era Chiquinha Gonzaga, compositora desde a infância.

Aos dezesseis anos, os pais a casaram, e o marquês que
depois seria o duque de Caxias foi padrinho do casamento.

Aos vinte, o marido a obrigou a escolher entre o lar e a música:
– Não entendo a vida sem música – disse ela, e saiu de casa.

Então seu pai proclamou que a honra familiar tinha sido
manchada, e denunciou que Chiquinha havia herdado de alguma avó negra sua tendência à perdição. E a declarou morta, e proibiu que em sua casa o nome daquela desguiada fosse mencionado.


Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO 

Dia 02 de Fevereiro - A deusa está em festa


Hoje, o litoral das Américas rende homenagem a Iemanjá.

Esta noite, a deusa mãe dos peixes, que há séculos veio da
África nos barcos dos escravos, se ergue na espuma e abre os braços.

O mar leva para ela pentes, escovas de cabelo, perfumes, doces, boa comida e outras oferendas dos marinheiros que por ela morrem de amor e de medo.

Parentes e amigos de Iemanjá costumam aparecer na festa, vindos do Olimpo africano:
Xangô, seu filho, que desata as chuvas do céu,
Oxumaré, o arco-íris, guardião do fogo,
Ogum, ferreiro e guerreiro, valentão e mulherengo,
Oxum, a amante que dorme nos rios e jamais apaga o que
escreve...

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

HOMENAGEM ESPECIAL A MINHA MÃE (EM MEMÓRIA)

Minha mãe aos 65 anos
Minha Mãe, Maria Afonso da Paixão, pernambucana, natural de Caruaru, município do agreste do estado, nascida em 05 de fevereiro de 1932, filha de uma família de agricultores. Seu pai era Manoel Afonso do Nascimento e sua mãe Maria José da Conceição.

Cor: parda-clara, olhos castanhos, cabelos castanhos lisos, medindo 1,56 aproximadamente.

Profissão: agricultora, professora e depois comerciária.

Falecida a 09 de junho de 2005, às 05h30min, com 73 anos de idade.

Minha mãe (à esquerda) no Alto do Morro do Bom Jesus.
Mulher zelosa com os filhos, o marido e casa. Mulher batalhadora, que no silêncio sabia tomar decisões importantes.

Sua história de sofrimento tem relatos desde a infância, de uma infecção na perna que (mesmo depois de curada) lhe trouxe sequelas pelo resto da vida.

Já depois de ter os dois filhos (eu e minha irmã), passou a sofrer de tempos em tempos de uma doença chamada "erisipela" que a deixava com a perna avermelhada, com febre alta e por várias dias acamada. Algumas vezes formavam bolhas e passavam vários dias infeccionadas.

Casamento dos meus pais.

Foi o esteio de nossa casa e, junto com meu pai equilibrava a relação familiar.

Teve visão empreendedora quando iniciamos em casa uma mercearia, o que nos garantiu alguns anos de alívio financeiro.

Administrou vários momentos de crise financeira, onde chegamos a passar fome e, manteve a dignidade o tempo todo.

Lutou incansavelmente durante o período em que meu pai esteve doente, ficando ao lado dele até na última hora e, cuidando de tudo, casa, filhos, mercearia.

Após a morte de meu pai, não quis saber de outro casamento e dedicou sua vida aos filhos e posteriormente aos netos.

Sofreu por vários anos com problemas de vesícula e por último um câncer de mama (descoberto já em estágio avançado) que a vitimou.

Foi triste ver seu sofrimento no último ano e meses de vida com o avanço da doença e, mais triste ainda porque eu não estava morando em Caruaru e, me encontrava num momento de muita dificuldades financeiras e de turbulências na vida pessoal, o que me limitava em vê-la e me impossibilitando em proporcionar uma melhor condição de vida pra ela.

Mais triste ainda é não tê-la aqui presente em nosso convívio.

Fica a certeza do exemplo de mulher e de mãe que foi e sempre será, a minha Maria.

Minha mãe em Caruaru na função de comerciária.

Minha mãe com amigas em Caruaru.

Minha mãe já com câncer e após iniciar a quimioterapia.

Minha mãe, já doente.

Minha mãe em seu aniversário de 65 anos.



sábado, 2 de fevereiro de 2019

02 de fevereiro dia de Victor Ernesto


Num dia de hoje 02 de fevereiro, há exatos 18 anos (2001), nasceu às 15:10 horas, na cidade de Palmares/PE, VICTOR ERNESTO SILVA DA PAIXÃO, meu terceiro filho.

Quando o Victor nasceu eu estava numa outra fase de transformações em minha vida. 
Minha atuação estava concentrada na zona da Mata Sul de Pernambuco, especialmente no município de Água Preta. Morava em Palmares e estava em meu segundo relacionamento conjugal.
Os ideais de vida, as convicções e minhas ideologias permaneciam as mesmas de antes, más por força de circunstâncias, passei por alguns traumas, perdas e insucessos, onde acrescentava-se também algumas incertezas.
Seu nascimento trouxe (à exemplo de meus outros dois filhos) muita luz pra minha vida e a tranquilidade que eu precisava naquele momento de turbulências.



Dei-lhe o nome de Victor Ernesto.
Victor, em homenagem ao poeta, cantor e compositor Chileno Victor Jara, preso, torturado e morto pelo Golpe Militar liderado por Pinochet no Chile em 1973.
Ernesto, foi mais uma vez em homenagem a Che Guevara, principal referência para a formação de minhas idéias e ideais de vida, que norteia minha trajetória social, política e humana.

Nessa importante data, quero desejar-lhe muita vida, paz, e saúde e, que possa sempre trilhar pelos caminhos do bem, que aprenda os valores principais que devem nortear a vida de um ser humano, que é ter a capacidade de exercer a solidariedade, a fraternidade e o amor; a valorização da vida acima de qualquer outra coisa e a indignação diante das injustiças que são cometidas contra qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo.



Que esta nova fase de adulto lhe traga responsabilidades, importantes e positivas escolhas e muita luz em seu caminho.

Parabéns meu filho, que Deus te abençõe sempre!