PONTO DE PARTIDA

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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Dia 1 de março - Foi


Elisa Lynch estava cavando a tumba com as unhas.

Os soldados vencedores, atônitos, deixavam.

Os arranhões daquela mulher erguiam nuvens de pó vermelho e sacudiam a madeixa avermelhada que chovia sobre seu rosto.

Solano López jazia ao seu lado.
Ela, mutilada dele, não chorava por ele, não olhava para ele: ia atirando terra em cima de seu corpo, inúteis punhados que queriam enterrá-lo na terra que havia sido a sua terra.

Já não havia ele, já não havia Paraguai.
Cinco anos havia durado a guerra.


Havia caído, assassinado, o único país latino-americano que negava obediência aos banqueiros e mercadores.

E enquanto Elisa continuava jogando punhados de terra sobre o homem que havia sido o seu homem, o sol se ia, e com o sol se ia esse maldito dia do ano de 1870.

Da mata do morro chamado de Cerro Corá, uns poucos pássaros lhe diziam adeus.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

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