PONTO DE PARTIDA

PONTO DE PARTIDA

domingo, 24 de março de 2019

Dia 26 de março - Libertadoras maias


Nesta noite de 1936, foi morta a pedradas Felipa Poot, indígena maia, no povoado de Kinchil.

No meio das pedradas, caíram com ela três companheiras, também maias, que ao seu lado lutavam contra a tristeza e o medo.

Foram mortas pela casta divina, como se chamavam a si mesmos os donos da terra e da gente de Iucatã.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 24 de março - Por que desaparecemos os desaparecidos


No dia de hoje do ano de 1976, nasceu a ditadura militar que desapareceu com milhares de argentinos.

Vinte anos depois, o general Jorge Rafael Videla explicou ao jornalista Guido Braslavsky:
– Não, não dava para fuzilar. Vamos pôr um número, vamos dizer cinco mil. A sociedade argentina não teria apoiado os fuzilamentos: ontem dois em Buenos Aires, hoje seis em Córdoba, amanhã quatro em Rosário, e isso até cinco mil... Não, não era possível. E dizer onde estão os restos?

Mas o que é que podíamos dizer? No mar, no rio da Prata, no Riachuelo?

Chegou-se a pensar, na época, em divulgar as listas. Mas depois pensamos:
se são dados por mortos, em seguida virão as perguntas que não podem ser respondidas: quem matou, quando, onde, como...


Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 23 de março - Por que massacramos os índios


No ano de 1982 o general Efraín Ríos Montt derrubou outro general, através de rasteira certeira, e se proclamou presidente da Guatemala.

Um ano e meio depois, o presidente, pastor da Igreja do Verbo, com sede na Califórnia, se atribuiu a vitória na guerra santa que exterminou quatrocentas e quarenta comunidades indígenas.

De acordo com o que ele disse, essa façanha não teria sido possível sem a ajuda do Espírito Santo, que dirigia seus serviços de inteligência.

Outro importante colaborador, seu assessor espiritual Francisco Bianchi, explicou a um correspondente do The New York Times:
– A guerrilha tem muitos colaboradores entre os índios. Esses índios são subversivos, não é mesmo? E como acabar com a subversão? É evidente que é preciso matar esses índios.

Depois vão dizer por aí: “Estão massacrando inocentes”. Mas não são inocentes.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 22 de março - Dia da Água


De água somos.

Da água brotou a vida. Os rios são o sangue que nutre a terra, e são feitas de água as células que nos pensam, as lágrimas que nos choram e a memória que nos recorda.

A memória nos conta que os desertos de hoje foram os bosques de ontem, e que o mundo seco foi mundo molhado, naqueles remotos tempos em que a água e a terra eram de ninguém e eram de todos.

Quem ficou com a água? O macaco que tinha o garrote. O macaco desarmado morreu de uma garrotada. Se não me engano, assim começava o filme 2001, Uma odisseia no espaço.

Algum tempo depois, no ano de 2009, uma nave espacial descobriu que existe água na Lua. A notícia apressou os planos de conquista.

Pobre Lua.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 21 de março - O mundo que é


A Segunda Guerra Mundial foi a que mais gente matou em toda a história das carnificinas humanas, mas a contagem das vítimas ficou aquém.

Muitos soldados das colônias não apareceram nas listas dos mortos. Eram os nativos australianos, indianos, birmaneses, filipinos, argelinos, senegaleses, vietnamitas e outros tantos negros, marrons e amarelos obrigados a morrer pela bandeira de seus amos.

Cotações: há viventes de primeira, segunda, terceira e quarta categoria.

Com os mortos acontece a mesma coisa.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 20 de março - O mundo que poderia ter sido


No dia 20 de março de 2003 os aviões do Iraque bombardearam os Estados Unidos.

Atrás das bombas, as tropas iraquianas invadiram o território norte-americano.

Houve numerosos danos colaterais. Muitos civis norteamericanos, em sua maioria mulheres e crianças, perderam a vida ou foram mutilados.

Desconhece-se a cifra exata, porque a tradição manda contar as vítimas das tropas invasoras e proíbe contar as vítimas da população invadida.

A guerra foi inevitável. A segurança do Iraque, e da humanidade inteira, estava ameaçada pelas armas de destruição massiva acumuladas nos arsenais dos Estados Unidos.

Nenhum fundamento tinham, porém, os rumores insidiosos que atribuíam ao Iraque a intenção de ficar com o petróleo do Alasca.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 19 de março - Nascimento do cinema


Em 1895, os irmãos Lumière, Louis e Auguste, filmaram um brevíssimo curta-metragem que mostrava a saída dos operários numa fábrica de Lyon.

Esse filme, o primeiro da história do cinema, foi visto por poucos amigos, muito poucos, e por ninguém mais.

Finalmente, no dia 28 de dezembro, os irmãos Lumière exibiram o filme para o grande público, junto com outros nove curtas-metragens de sua autoria, que também registravam fugazes momentos da realidade.

No porão do Grand Café de Paris, aconteceu a estreia mundial do prodigioso espetáculo, filho da lanterna mágica, da roda da vida e de outras artes de ilusionistas.

Lotação completa. Trinta e cinco pessoas, a um franco o ingresso.

Georges Méliès foi um dos espectadores. Quis comprar a máquina filmadora. Como não quiseram vender, inventou outra.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 18 de março - Com os deuses por dentro


Na cordilheira dos Andes, os conquistadores espanhóis haviam expulsado os deuses indígenas.

A idolatria foi extirpada.

Mas lá pelo ano de 1560 os deuses regressaram. Viajaram com suas grandes asas, vindos sabe-se lá de onde, e se meteram nos corpos de seus filhos, de Ayacucho até Oruro, e nesses corpos dançaram.

As danças, que dançavam a rebelião, foram castigadas com o açoite ou a forca, mas não houve maneira de pará-las.

E continuaram anunciando o fim da humilhação.

Na língua quéchua, a palavra ñaupa significa foi, mas também
significa será.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 17 de março - Eles souberam escutar


Carlos e Gudrun Lenkersdorf nasceram e viveram na Alemanha. No ano de 1973, esses ilustres professores chegaram ao México. E entraram no mundo maia, numa comunidade tojolabal, e se apresentaram dizendo:
– Nós viemos para aprender.

Os indígenas ficaram em silêncio.

Depois de um tempinho, alguém explicou o silêncio:
– É a primeira vez que alguém diz isso para a gente.

E aprendendo Gudrun e Carlos ficaram por lá, durante anos e anos. Da língua maia, aprenderam que não há hierarquia que separe o sujeito do objeto, porque eu bebo a água que me bebe e sou visto por tudo que vejo, e aprenderam a cumprimentar assim:
– Eu sou outro você.
– Você é outro eu.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 16 de março - Quem conta um conto


Por esses dias, e em outros também, os narradores que contam contos a viva voz, escrevendo no ar, celebram seus festivais.

Os contadores de contos têm numerosas divindades que os inspiram e amparam.

Entre elas, Rafuema, o avô que contou a história da origem do povo uitoto, na região colombiana de Araracuara.

Rafuema contou que os uitotos nasceram das palavras que contaram seu nascimento. E cada vez que ele contava isso, os uitotos tornavam a nascer.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 15 de março - Vozes da noite


Neste amanhecer do ano 44 a.C., Calpúrnia despertou chorando.

Ela havia sonhado que o marido, crivado de punhaladas, agonizava em seus braços.

E Calpúrnia contou o sonho para o marido, e chorando rogou que ficasse em casa, porque lá fora o cemitério esperava por ele.

Mas o pontífice máximo, o ditador vitalício, o guerreiro divino, o deus invicto, não podia dar importância ao sonho de uma mulher.

Júlio César afastou-a com um empurrão, e rumo ao Senado de Roma caminhou sua morte.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 14 de março - O capital


Em 1883, uma multidão compareceu ao enterro de Karl Marx no cemitério de Londres: uma multidão de onze pessoas, contando o coveiro.

A mais famosa de suas frases foi seu epitáfio: Os filósofos interpretaram o mundo, de várias maneiras; mas a questão é mudar o mundo.

Este profeta da transformação do mundo passou sua vida fugindo da polícia e dos credores.

Sobre sua obra-prima, comentou:
Ninguém escreveu tanto sobre o dinheiro, tendo tão pouco dinheiro.

O capital não vai pagar nem os charutos que fumei enquanto escrevia.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 13 de março - As boas consciências


No dia de hoje do ano de 2007, a empresa bananeira Chiquita Brands, herdeira da United Fruit, reconheceu que durante sete anos havia financiado os paramilitares colombianos, e aceitou pagar uma multa.

Os paramilitares ofereciam proteção contra as greves e outros maus hábitos dos sindicatos de trabalhadores. Cento e setenta e três sindicalistas foram assassinados na região bananeira, naqueles sete anos.

A multa foi de vinte e cinco milhões de dólares. Nem um único
centavo chegou às famílias das vítimas.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 12 de março - Mais sabe o sonho que a vigília


Fica rubro o monte Fuji, o símbolo do Japão.

Cobrem o céu as vermelhas nuvens de plutônio, as nuvens amarelas de estrôncio, as nuvens púrpuras de césio, todas elas carregadas de câncer e de outros monstros.

Seis centrais nucleares explodiram.

As pessoas, desesperadas, fogem para lugar nenhum:
– Eles nos enganaram! Eles mentiram para nós!

Alguns se atiram no mar ou no vazio, para apressar o destino.

Akira Kurosawa sonhou esse pesadelo, e o filmou, vinte anos
antes da catástrofe nuclear que no começo de 2011 desencadeou um apocalipse em seu país.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 11 de março - A esquerda é a universidade da direita


Em 1931 nasceu, na Austrália, um bebê que foi chamado de Rupert.

Em poucos anos, Rupert Murdoch se tornou amo e senhor dos meios de comunicação no mundo inteiro.

O assombroso voo rumo ao êxito não se explica só pela sua astúcia e sua maestria no jogo sujo. Rupert também foi ajudado pelo seu conhecimento dos segredos do sistema capitalista.

E isso ele aprendeu quando era um estudante de vinte e poucos anos que admirava Lênin e lia Marx.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 10 de março - O Diabo tocou violino


Nesta noite de 1712, o Diabo visitou o jovem violinista Giuseppe Tartini, e em sonhos tocou para ele.

Giuseppe queria que aquela música não terminasse nunca; mas, quando acordou, a música tinha ido embora.

Na procura daquela música perdida, Tartini compôs duzentas e dezenove sonatas, que executou com inútil maestria durante toda a sua vida.

O público aplaudia seus fracassos.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 9 de março - O dia em que o México invadiu os Estados Unidos


Nesta madrugada de 1916, Pancho Villa atravessou a fronteira, incendiou a cidade de Columbus, matou alguns soldados, levou embora alguns cavalos e algumas munições, e no dia seguinte voltou para o México, para contar sua façanha.

Essa fugaz incursão dos ginetes de Pancho Villa foi a única invasão que os Estados Unidos sofreram em toda a sua história.

Por sua vez, o país invadiu e continua invadindo quase o mundo inteiro.

Desde 1947, seu Ministério da Guerra se chama Ministério de Defesa, e seu orçamento de Guerra se chama orçamento de Defesa.

O nome é um enigma ainda mais indecifrável que o mistério da Santíssima Trindade.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

sexta-feira, 8 de março de 2019

Por aquelas, que são discriminadas, marginalizadas, invisibilizadas e violentadas


Refletindo sobre o 8 de março, vendo tantas mensagens acompanhadas de flores, imagens bonitas em que figuram mulheres sorrindo, e outras frases poéticas...

Me sinto no compromisso de lembrar das mulheres, tantas Marias, Josefas, Quitérias, Margaridas, Severinas... aquelas que não figuram nos cartazes e outras peças de mensagens...

Daquelas que sobrevivem nas periferias urbanas e rurais, nas favelas, nas ruas, embaixo de pontes, nos lixões em condições desumanas.

Daquelas abandonadas, excluídas, invisibilizadas, marginalizadas, exploradas (em casa ou no trabalho).

Daquelas desprezadas, agredidas e violentadas, muitas vezes pelos seus próprios "companheiros".

Daquelas vítimas da covardia machista que agride, violenta e mata.

Daquelas que não podem dar a seus filhos uma roupa, calçado ou comida.

Daquelas que às vezes não encontrando saída, são levadas a se prostituirem, submetendo-se a exploração para (no mínimo) sobreviver.

Daquelas invisibilizadas, que não são tratadas como seres humanos, que contam apenas como estatística social.

Enfim, lembrar daquelas mulheres, que trazem no corpo e no rosto, a dor do sofrimento, das perdas, das lutas diárias, das injustiças (das quais são vítimas constantes) e da violência covarde.

Busco palavras que possam lhes definir, sabendo que são infindáveies suas qualidades...

BELEZA, FORÇA, RAÇA, GANA E RESISTÊNCIA!

Assim as vejo!

8 DE MARÇO - DIA INTERNACIONAL DA MULHER


A todo instante devemos nos sentir convocados a refletir sobre a Mulher.
A Mulher que na sociedade em que vivemos ainda sofre imensamente com as discriminações e as explorações em casa, no trabalho e até mesmo nos grupos que compõem a chamada sociedade organizada.

Vista  ou propagada muitas vezes (nos grandes veículos de comunicação, redes sociais ou propagandas), como símbolo ou objeto sexual, sendo vítima do extremo machismo que desrespeita, assedia e agride, ou ainda da selvageria dos que violam, estupram e matam.

Ela ainda é vista por alguns como frágil, muitas vezes desprezada, esquecida e marginalizada por uma estrutura social injusta e desumana.
No passar dos séculos e principalmente das décadas mais recentes, as mulheres têm buscado, e conquistado espaços significativos na sociedade, ocupando funções e desenvolvendo atividades antes reservadas apenas aos homens.

No entanto, tudo isto ainda é insuficiente, pois, não se trata de (na visão machista) “dar espaço às mulheres”, como se fosse uma concessão dos homens ou da sociedade, e não como um direito legítimo enquanto ser humano, conquistado através de muitas lutas.

Para que haja na verdade o respeito aos direitos da mulher enquanto pessoa e ser humano que é, teremos que ir muito além dos limites atuais, romper com as amarras do conservadorismo e da discriminação, criados desde tempos passados, destruir as injustiças existentes nesta sociedade, vencer nossos preconceitos enraizados na nossa formação e impregnados em nossa cultura.

A plenitude desta conquista virá  com o surgimento de uma sociedade, baseada na justiça, na igualdade, na  solidariedade e na democracia; onde o homem não veja a mulher como objeto de satisfação dos seus “desejos”, que seja capaz de conviver com a mulher como uma companheira e não como escrava ou empregada; um novo homem capaz de amar, capaz de expressar os gestos mais puros e sinceros; quando a mulher também entender e decidir que não deve permitir que seja usada, que não deve ser peça descartável, que não deve se vender ou submeter-se, que deve lutar e exigir o reconhecimento de seus valores; quando homem e mulher compreenderem que todos devem ser iguais em direitos e deveres, e que um não é superior ao outro.

Somente assim, com uma mudança total, viveremos o nascimento de uma Nova Mulher, verdadeiramente Livre, Independente e Feliz.

Uma saudação especial a todas as mulheres, mães, esposas, amantes, companheiras, guerreiras, guerrilheiras, a estas Marias/Mulheres que são “um dom, uma certa magia, uma força que nos alerta... uma mulher que merece viver e amar como todas as pessoas do planeta”.

Até a vitória sempre!!

Mulher!!

Dia 8 de março - Homenagens


Hoje é o Dia da Mulher.

Ao longo da história, vários pensadores, humanos e divinos,
todos machos, cuidaram da mulher, por várias razões:
 
- Pela sua anatomia
Aristóteles: A mulher é um homem incompleto.
São Tomás de Aquino: A mulher é um erro da natureza, nasce de um esperma em mau estado.
Martinho Lutero: Os homens têm ombros largos e cadeiras estreitas.
São dotados de inteligência. As mulheres têm ombros estreitos e cadeiras largas, para ter filhos e ficar em casa.
 
- Pela sua natureza
Francisco de Quevedo: As galinhas botam ovos e as mulheres, chifres.
São João Damasceno: A mulher é uma jumenta teimosa.
Arthur Schopenhauer: A mulher é um animal de cabelos longos e pensamentos curtos.
 
- Pelo seu destino
Disse Yahvé à mulher, segundo a Bíblia: Teu marido te dominará.
Disse Alá a Maomé, segundo o Corão: As boas mulheres são
obedientes.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 7 de março - As bruxas


No ano de 1770, uma lei inglesa condenou as mulheres enganadoras.

Essas pérfidas seduziam os súditos de Sua Majestade e os empurravam ao casamento utilizando artes más como perfumes, pinturas, banhos cosméticos, dentaduras postiças, perucas, recheios de lã, espartilhos, armações, aros e brincos e sapatos de salto alto.

As autoras dessas fraudes, dizia a lei, serão julgadas segundo as leis vigentes contra a bruxaria, e seus matrimônios serão declarados nulos e dissolvidos.

O atraso tecnológico impediu que fossem incluídos nessa lei o silicone, a lipoaspiração, o botox, a cirurgia plástica e outros prodígios cirúrgicos e químicos.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 6 de março - A florista


Georgia O’Keeffe viveu pintando durante quase um século, e pintando morreu.

Seus quadros ergueram um jardim na solidão do deserto.

As flores de Georgia, clitóris, vulvas, vaginas, mamilos,
umbigos, eram os cálices de uma missa de ação de graças pela alegria de ter nascido mulher.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

segunda-feira, 4 de março de 2019

Dia 5 de março - O divórcio como medida higiênica

Mercedes Pinto
Em 1953, estreou no México um filme de Luis Buñuel chamado Ele. Buñuel, desterrado espanhol, havia filmado o romance de uma desterrada espanhola, Mercedes Pinto, que contava os suplícios da vida conjugal.

Ficou três semanas em cartaz. O público ria como se fosse um filme do Cantinflas.

A autora do romance tinha sido expulsa da Espanha em 1923.

Ela havia cometido o sacrilégio de dar uma conferência na Universidade de Madri cujo título já fazia dela alguém insuportável: O divórcio como medida higiênica.

O ditador Miguel Primo de Rivera mandou chamá-la. Falou em nome da Igreja católica, a Santa Mãe, e em poucas palavras disse tudo:
– Ou se cala, senhora, ou vai embora.

E Mercedes Pinto foi-se embora.
A partir de então, seu passo criativo, que acordava o chão onde pisava, deixou sua marca no Uruguai, na Bolívia, na Argentina, em Cuba, no México...

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 4 de março - O milagre saudita


Em 1938, explodiu a grande notícia: a Standard Oil Company descobriu um mar de petróleo debaixo dos imensos areais da Arábia Saudita.

Atualmente, esse é o país que fabrica os terroristas mais famosos e o que mais viola os direitos humanos; mas as potências ocidentais, que tanto invocam o perigo árabe para semear pânico ou atirar bombas, se relacionam muitíssimo bem com esse reino de cinco mil príncipes.

Será porque também é o reino que mais petróleo vende e mais armas compra?

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

domingo, 3 de março de 2019

Dia 3 de março - Libertadoras brasileiras


Hoje terminou, em 1770, o reinado de Teresa de Benguela em Quariterê. Foi um dos santuários de liberdade dos escravos fugidos no Brasil. Durante vinte anos, Teresa enlouqueceu os soldados do governador de Mato Grosso. Não conseguiram apanhá-la viva.

Nos esconderijos da floresta, houve umas quantas mulheres que além de cozinhar e parir foram capazes de competir e de mandar, como Zacimba Gambá, no Espírito Santo, Mariana Crioula, no interior do Rio de Janeiro, Zeferina, na Bahia, e Felipa Maria Aranha, no Tocantins.

No Pará, nas margens do rio Trombetas, não havia quem discutisse as ordens de Mãe Domingas.

No vasto refúgio de Palmares, em Alagoas, a princesa africana Aqualtune governou uma aldeia livre, até que foi incendiada pelas tropas coloniais em 1677.

Ainda existe, e se chama Conceição das Crioulas, em Pernambuco, a comunidade que duas negras fugitivas, as irmãs Francisca e Mendecha Ferreira, fundaram em 1802.

Quando as tropas escravistas andavam por perto, as escravas liberadas enchiam de sementes suas frondosas cabeleiras africanas. Como em outros lugares das Américas, transformavam suas cabeças em celeiros, para o caso de ter de sair correndo em disparada.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 2 de março - Digo assoviando


O assovio é a linguagem de La Gomera.

Em 1999, o governo das ilhas Canárias decidiu que nas
escolas fosse estudado o idioma perpetuado pelo povo que o
assovia.

Nos tempos de antigamente, os pastores da ilha de La Gomera se comunicavam assoviando, desde as montanhas distantes, graças aos barrancos que multiplicavam os ecos. E assim transmitiam mensagens e contavam o acontecido, notícias de quem tinha ido e de quem tinha vindo, os perigos e as alegrias, os trabalhos e os dias.

Passaram-se dois séculos, e nesta ilha os assovios humanos,
invejados pelos pássaros, continuam sendo tão poderosos como as vozes do vento e do mar.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

sábado, 2 de março de 2019

PESADELO


UMA MÚSICA DE PAULO CÉSAR PINHEIRO QUE FALA MUITA COISA DO QUE FOI A ÉPOCA DA DITADURA MILITAR E O QUE REPRESENTA O MOMENTO DE RETROCESSOS QUE ESTAMOS VIVENDO.

Paulo César Pinheiro
 
Pesadelo
(Maurício Tapajós / Paulo César Pinheiro)

Quando o muro separa uma ponte une
Se a vingança encara o remorso pune
Você vem me agarra, alguém vem me solta
Você vai na marra, ela um dia volta
E se a força é tua ela um dia é nossa
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

Você corta um verso, eu escrevo outro
Você me prende vivo, eu escapo morto
De repente olha eu de novo
Perturbando a paz, exigindo troco
Vamos por aí eu e meu cachorro
Olha um verso, olha o outro
Olha o velho, olha o moço chegando
Que medo você tem de nós, olha aí

O muro caiu, olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo, horizonte
Abraça o dia de amanhã, olha aí

SAIBA QUEM É PAULO CÉSAR PINHEIRO

CONHEÇA A HISTÓRIA DA MÚSICA PESADELO CONTADA PELO PRÓPRIO PAULO CÉSAR PINHEIRO, EM ENTREVISTA AO SITE: A NOVA DEMOCRACIA

AND — Como era fazer música na época do gerenciamento militar?

Olha, eu participei de movimento estudantil, e naquela época os diretórios eram células fortes dentro das faculdades. Os estudantes se reuniam e discutiam o mundo, ao contrário do que ocorre hoje. Os meninos estão sem ideal, perdidos, não sabem o que fazer. A gente com 16, 17 anos estava querendo mudar o mundo. A gente se reunia, ia para rua, brigava.

A partir do momento em que comecei a gravar, já fui tendo problemas com a censura. Tive muita música censurada, discutia com o censor; um suplício porque eram muito ignorantes. Tinha uma música, também de 68, Sagarana, cuja letra eu fiz em homenagem ao Guimarães Rosa, um dos meus escritores prediletos, a ponto de chegar a dominar sua linguagem e a escrever igual a ele se eu quisesse. Fiz essa composição assim, como uma letra de música semelhante à sua literatura. Ela foi muito comentada. Partia de uma idéia inusitada, diferente, original. A censura alegou que ela havia sido escrita em linguagem cifrada, de código, e a canção foi vetada.

Fui discutir na censura com um livro do Guimarães Rosa debaixo do braço. E disse para o censor: "O nome dessa música é Sagarana, por causa desse livro". Mas era muito difícil conversar com esses caras.

Outra minha, Cordilheiras, ficou cinco anos presa numa gaveta de censura. Eu acabava virando uma bola de ping-pong naquele prédio da polícia federal, em Brasília, de sala em sala. Quanto mais argumentava, eles, não tendo saída para os nossos contra-argumentos, mandavam-nos para outro censor. No final, caíamos no primeiro, de novo. Era um inferno, tanto a censura federal, quanto a local, na esquina da Senador Dantas com a Álvaro Alvim. Nós escrevíamos por metáforas, fazíamos o que era possível para que a música pudesse passar.

AND — Algumas músicas claramente contra o regime passavam, outras, que não tinham esse teor, eram vetadas. Por que isso?

Uma lupa se voltava sobre o que era dito pelas pessoas marcadas. Outras, não. Músicas de carnaval, aquelas rotuladas de "brega", sempre passavam batidas, eram carimbadas e liberadas. Certa vez aconteceu um fato curioso com uma música, minha e do Maurício Tapajós, chamada Pesadelo, que virou um hino de guerra. Quando fizemos a música, mostramos para o pessoal do MPB-4: "Não adianta nem pensar na gravação; não vai dar nem pé". E a gente disse: "Se passar, vocês gravam?". Um pouco descrentes, eles responderam sim.

Fui contratado pela Odeon e fiz um disco em 72. Comecei a entender o funcionamento das gravadoras, e via como elas mandavam as músicas para a censura. Num determinado momento, a censura nem aceitava mais a letra escrita, queriam a gravação, porque na gravação poderia conter uma segunda intenção. Então eu disse: "Olha, eu vou fazer uma malandragem. Vou mandar essa música no meio de um bolo que a Odeon sempre manda." Era um período em que havia muito material para mandar. Tinha um disco do Agnaldo Timóteo, com aquelas canções derramadas, e outras coisas românticas. Pedi a um funcionário da casa que enfiasse Pesadelo no meio desses discos. Assim, a música veio liberada. E o MPB-4 a gravou.

Mesmo depois de liberada, as pessoas tinham medo de gravar, mas o MPB-4 sempre foi valente. Apesar disso, toda vez que eles cantavam Pesadelo, ninguém entendia como tinha passado pela censura. As emissoras de rádio começaram a não tocá-la.

AND — E qual a música desse período que mais te marcou?

Pesadelo, sem dúvida. Contaram que durante a Guerrilha do Araguaia, na selva, eles cantavam Pesadelo. Dizem ter sido a música que mais ajudou, nessa fase de luta armada, a todos eles, a mais forte politicamente que a gente fez, e a única direta, sem subterfúgios, sem metáforas, que passou.

VEJA A ENTREVISTA COMPLETA

Um Homem. Por Leandro Fortes

AFP / Miguel SCHINCARIOL O ex-presidente Lula ao chegar ao funeral de seu neto Arthur, em São Bernardo do Campo, em 2 de março de 2019

Lula, em silêncio, comandou com os olhos o espetáculo de dor e esperança do que deveria ter sido apenas um enterro triste, como sempre são devastadoramente tristes os enterros de crianças.

Em silêncio, coroado de cabelos brancos, Lula fez o mundo tremer.

Pois foi o mundo todo que viu os seguranças, as polícias, os soldados, as armas e o rancor mobilizados, todos cagados de medo, sem compreender a força daquele homem.

Aquele homem que os deixou nus.

As pessoas não foram enterrar Arthur, foram levar amor a Lula, foram oferecer seus corações, sua fé, seus olhos para que por eles Lula pudesse chorar também. Vieram pedir Justiça, esperar nem que fosse um milagre.

Em silêncio, Lula falou mais alto do que todos, foi além da roupa de mártir que se recusa a vestir. Cruzou o mar de dor com dignidade. E, no pouco tempo que lhe deram para sofrer, fez o mundo sofrer com ele, cada pessoa decente, cada humano em sintonia com o outro, cada irmão, cada irmã.

Lula enterrou Arthur e, generoso, trouxe calor de novo aos nossos corações. Encheu nossa alma de coragem e se colocou, outra vez, à frente da luta.

De novo, esse homem preso sem provas, vítima de um Judiciário apodrecido, deixou apavorados seus algozes, seus detratores e os dementes que os seguem.

Um velho calado, vestido apenas de coragem e amor, fez toda essa gente tremer.

Preso, Lula nos deu liberdade. Sempre vamos dever isso a ele.