PONTO DE PARTIDA

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quinta-feira, 18 de abril de 2019

O Verdadeiro sentido da Páscoa - Uma reflexão


Por ter tido uma formação cristã, desde minha infância, me acompanha algumas reflexões sobre o verdadeiro sentido da Páscoa.

Nunca fui influenciado pela propaganda consumista dos ovos de chocolates, até porque para o pobre, não é possível "se dar ao luxo" de comprar chocolate quando existem outras necessidades alimentares mais urgentes. Sem falar naquelas famílias, abaixo da linha de pobreza, que nem comida tem, nem casa, nem trabalho... nada.

Fui crescendo e algumas certezas foram sendo construídas. Especialmente uma compreensão sempre teve um lugar especial em minha mente:

Sendo a Páscoa a celebração da história de Jesus Cristo, que veio a esse mundo dar um testemunho de vida, que transmitiu uma mensagem de paz e de amor, que deu sua vida para provar ser verdade aquilo que vivia e que pregava, que enfrentou os poderosos, mostrando a necessidade de se construir um mundo baseado nas relações de fraternidade, da solidariedade, do amor ao outro, do olhar especial pelos mais pobres... PORQUE TANTAS PESSOAS (MUITOS INCLUSIVE, QUE SE DIZ CRISTÃOS) DÃO MAIS IMPORTÂNCIA AO COELHINHO E AOS OVOS DE CHOCOLATE? AO CONSUMISMO BANAL?

Além disso, vemos alguns "costumes" que sinceramente, não se justificam:

- Uns passam a maior parte do tempo de sua vida, falando mal dos outros, disseminando o ódio, a intriga e pregando a violência, daí, acham que na Páscoa tudo é resolvido com a distribuição de ovos de chocolates e presentes entre os amigos(as) e parentes, vai à missa e tá tudo bem. Esqueceram que suas atitudes foram e são repudiadas pelo exemplo do próprio Jesus Cristo.

- Outros, promovem almoços de Páscoa imensamente fartos, comem bastante, vão à missa e, acham que é um exemplo de cristão. Só esquecem que Jesus Cristo viveu e pregou a partilha, o dividir com os que mais precisam.

- Existem ainda aqueles que enchem a cara, substituem as outras bebidas alcoólicas pelo vinho e, enchem a cara, achando que assim estão respeitando alguma coisa? 

Enfim, são várias formas utilizadas para se "comemorar" a Páscoa, que ficam muito longe do verdadeiro objetivo e da real simbologia desta data.

Se alguém quer vivenciar o verdadeiro sentido da Páscoa, reflita sobre a vida, o exemplo, a dedicação, o compromisso e a entrega de Jesus Cristo, daí é só seguir o exemplo deixado por Ele.

Teríamos, certamente, um mundo bem melhor!

Dia 18 de abril - Cuidado com ele


Hoje morreu, em 1955, Albert Einstein.

Até este dia, e durante vinte e dois anos, o FBI, Federal Bureau of Investigation, grampeou seu telefone, leu suas cartas e revirou suas latas de lixo.

Einstein foi espionado porque era espião. Espião de Moscou:
era o que dizia sua frondosa ficha policial. E também dizia que ele havia inventado um raio exterminador e um robô capaz de ler a mente humana.

E dizia que Einstein foi membro, colaborador ou filiado a trinta e quatro frentes comunistas entre 1937 e 1954, dirigiu honorariamente três organizações comunistas, e não parece possível que um homem com esses antecedentes possa se transformar num leal cidadão americano.

Nem a morte o salvou. Continuou sendo espionado. Já não pelo FBI, mas pelos seus colegas, os homens da ciência, que cortaram seu cérebro em duzentos e quarenta pedacinhos e analisaram um por um, à procura da explicação de seu gênio.

Não encontraram nada.
Einstein bem que tinha avisado:
– A única coisa de anormal que tenho é a minha curiosidade.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 17 de abril - Caruso cantou e correu


Nesta noite de 1906, o tenor Enrico Caruso cantou a ópera Carmen na sala Tívoli, na cidade de San Francisco.

A ovação o acompanhou até as portas do hotel Palace.

Dormiu pouco, o mestre do bel canto. Ao amanhecer, um tranco violento o jogou da cama.

O terremoto, o pior de toda a história da Califórnia, matou mais de três mil pessoas e demoliu metade das casas da cidade.

Caruso desandou a correr e não parou até chegar em Roma.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 16 de abril - O canto profundo


No ano de 1881, Antonio Machado y Álvarez pôs o ponto final em sua antologia de cantos flamencos, novecentas quadras do cantar cigano da Andaluzia:
 
Eram insossas no antigo
todas as ondas do mar,
mas cuspiu minha morena
e se fizeram salgadas.

Têm, as que são morenas,
um olhar tão estranho,
que matam em uma hora
mais que a morte em um ano.

No dia em que nasceste
caiu um pedaço do céu.
E até que tu morras
o rombo fica lá, ao léu.


E o livro foi publicado, e recebido com desdém. O cante jondo, canto profundo, era digno de desprezo por ser cigano.

Mas, por serem ciganas, as quadras trazem dentro de si a música, e em suas palmas e em seus pés.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 15 de abril - As pinturas negras


Em 1828, Francisco de Goya morreu no desterro.

Acossado pela Inquisição, tinha partido para a França.

Em sua agonia, Goya evocou, entre algumas palavras incompreensíveis, sua querida casa dos arredores de Madri, nas margens do rio Manzanares. Lá havia ficado o melhor dele, o mais seu, pintado nas paredes.

Depois da sua morte, essa casa foi vendida e revendida, com pinturas e tudo, até que as obras, desprendidas das paredes, passaram para a tela. Foram oferecidas, em vão, na Exposição Internacional de Paris.

Ninguém se interessou em ver, e muito menos em comprar, essas ferozes profecias do século seguinte, onde a dor matava a cor e sem pudor o horror se mostrava em carne viva.

Tampouco o Museu do Prado quis comprá-las, até que no começo de 1882 as obras enfim entraram lá, doadas.

As chamadas pinturas negras ocupam, agora, uma das salas
mais visitadas do museu.
– Isso, eu pinto para mim – havia dito Goya.

Ele não sabia que pintava para nós.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Dia 14 de abril - Grandiosos ou grandalhões?


No ano de 1588, foi vencida, em poucas horas, a Armada Invencível, a frota espanhola que era a maior do mundo.

No ano de 1628, o mais poderoso navio de guerra da Suécia, o Vasa, também chamado de Invencível, afundou em sua viagem inaugural. Não chegou nem a sair do porto de Estocolmo.

E na noite de hoje do ano de 1912 chocou-se contra um iceberg e foi a pique o navio mais luxuoso e mais seguro, humildemente chamado de Titanic.

Esse palácio flutuante tinha poucos botes salva-vidas, seu timão era tão pequeno que acabou sendo inútil, seus vigias não usavam binóculos e seus alarmes de perigo não foram ouvidos por ninguém.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 13 de abril - Não soubemos ver você


No ano de 2009, no átrio do convento de Mani de Iucatã, quarenta e dois frades franciscanos cumpriram uma cerimônia de desagravo à cultura indígena:
– Pedimos perdão ao povo maia, por não haver entendido sua cosmovisão, sua religião, por negar suas divindades; por não ter respeitado sua cultura, por haver imposto durante muitos séculos uma religião que não entendiam, por haver satanizado suas práticas religiosas, e por haver dito e escrito que eram obra do Demônio e que seus ídolos eram o próprio Satanás materializado.

Quatro séculos e meio antes, naquele mesmo lugar, outro frade franciscano, Diego de Landa, havia queimado os livros maias, que guardavam oito séculos de memória coletiva.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 12 de abril - A fabricação do culpado


Num dia como o de hoje do ano 33, dia a mais, dia a menos, Jesus de Nazaré morreu na cruz.

Seus juízes o condenaram por incitação à idolatria, blasfêmias e superstição abominável.

Alguns séculos depois, os índios das Américas e os hereges da Europa foram condenados por esses mesmos crimes, exatamente os mesmos, e em nome de Jesus de Nazaré foram castigados com açoite, forca ou fogo.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 11 de abril -Meios de comunicação


No dia de hoje do ano de 2002, um golpe de Estado transformou o presidente dos empresários em presidente da Venezuela.

Pouco durou a sua glória. Um par de dias depois, os venezuelanos, esparramados pelas ruas, restituíram o presidente eleito pelos seus votos.

As grandes emissoras de televisão e as rádios de maior difusão da Venezuela haviam celebrado o golpe, mas não perceberam que o povo havia devolvido Hugo Chávez ao seu devido lugar.

Por se tratar de uma notícia desagradável, os meios de comunicação não comunicaram nada.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 10 de abril - A fabricação de doenças


Boa saúde? Saúde ruim? Tudo depende do ponto de vista. Do ponto de vista da grande indústria farmacêutica, a má saúde é muito saudável.

A timidez, digamos, podia ser simpática, e talvez atrativa, até se transformar em doença.

No ano de 1980, a American Psychiatric Association decidiu que a timidez é uma doença psiquiátrica e a incluiu em seu Manual de alterações mentais, que periodicamente põe os sacerdotes da Ciência em dia.

Como toda doença, a timidez precisa de medicamentos.

Desde que a notícia se tornou conhecida, os grandes laboratórios ganharam fortunas vendendo esperanças de cura aos pacientes infestados por essa fobia social, alergia a pessoas, doença médica severa...

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 9 de abril - A boa saúde


No ano de 2011, pela segunda vez a população da Islândia disse não às ordens do Fundo Monetário Internacional.

O FMI e a União Europeia tinham decidido que os trezentos e vinte mil habitantes da Islândia deveriam assumir a bancarrota dos banqueiros e pagar suas dívidas internacionais na base de doze mil euros por cabeça.

Essa socialização pelo avesso foi rejeitada em dois plebiscitos:
– Essa dívida não é nossa. Por que vamos pagar?

Num mundo enlouquecido pela crise financeira, a pequena ilha perdida nas águas do norte nos deu, a todos nós, uma saudável lição de bom-senso.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 8 de abril - O homem que nasceu muitas vezes


Morreu hoje, em 1973, Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso, mais conhecido como Pablo Picasso.

Tinha nascido em 1881. E dá para ver que gostou de nascer, porque continuou nascendo.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 7 de abril - A conta do doutor


Há três mil e setecentos anos, o rei da Babilônia, Hamurabi, estabeleceu por lei as tarifas médicas, ditadas pelos deuses:
Se o médico curou com sua lanceta de bronze uma ferida grave ou o abscesso em um olho de um homem livre, receberá dez shekels de prata.

Se o paciente é de família pobre, o médico receberá cinco shekels de prata. Se o paciente é escravo de um homem livre, seu senhor pagará ao médico dois shekels de prata.

Serão cortadas as mãos do médico se o seu tratamento tiver causado a morte de um homem livre ou provocado a perda de um olho.

Se o tratamento causou a morte do escravo de um homem pobre, o médico lhe entregará um escravo seu.

Se o tratamento tiver causado a perda de um olho do escravo, o médico pagará a metade do preço do escravo.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 6 de abril - Travessia da noite


Em certas aldeias perdidas nas montanhas da Guatemala, mãos anônimas criam bonequinhos das preocupações.
 
Eles são um santo remédio contra as preocupações: despreocupam os preocupados e os salvam da peste da insônia.

Os bonequinhos das preocupações não dizem nada. Eles curam escutando.

Agachados debaixo do travesseiro, escutam os pesares e os penares, as dúvidas e as dívidas, tormentos que acossam o dormir humano, e magicamente levam tudo para longe, muito longe, até o lugar secreto onde nenhuma noite é inimiga.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 5 de abril - Dia de luz


Aconteceu na África, em Ifé, cidade sagrada do reino dos iorubas, talvez num dia como hoje, ou quem sabe quando.

Um velho, já muito enfermo, reuniu seus três filhos e anunciou:
– Minhas coisas mais queridas serão de quem conseguir encher esta sala completamente.

E esperou lá fora, sentado, enquanto a noite caía.

Um dos filhos trouxe toda a palha que conseguiu juntar, mas a sala só ficou cheia até a metade.

Outro filho trouxe toda a areia que conseguiu reunir, mas metade da sala ficou vazia.

O terceiro filho acendeu uma vela.
E a sala se encheu.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 4 de abril - O fantasma


Em 1846 nasceu Isidore Ducasse.

Eram tempos de guerra em Montevidéu, e ele foi batizado ao som de tiros de canhão.

Assim que pôde, foi-se embora para Paris. Lá se transformou no Conde de Lautréamont, e seus pesadelos contribuíram para a fundação do surrealismo.

Neste mundo, passou de visita: em sua breve vida incendiou a linguagem, em suas palavras ardeu e virou fumaça.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 3 de abril - Bons garotos


Em 1882, uma bala entrou na nuca de Jesse James. Foi disparada pelo seu melhor amigo, para receber a recompensa.

Antes de se transformar no bandoleiro mais famoso, Jesse havia combatido contra o presidente Lincoln, nas fileiras do exército escravagista do Sul.

Quando perderam a guerra, ele não teve outro remédio a não ser mudar de emprego. Assim nasceu a quadrilha de Jesse James.

A quadrilha, que usava máscaras do Ku Klux Klan, começou suas atividades assaltando um trem pela primeira vez na história dos Estados Unidos; e depois de limpar todos os passageiros, se dedicou a rapar bancos e diligências.

A lenda conta que Jesse foi um tipo meio Robin Hood do Velho Oeste, que roubava dos ricos para ajudar os pobres, mas ninguém jamais conheceu um pobre que tivesse recebido uma única moeda de suas mãos.

Em compensação, está mais que provado que ele ajudou Hollywood, e muito. A indústria do cinema deve a ele quarenta filmes, quase todos de sucesso, onde os astros mais famosos, de Tyrone Power a Brad Pitt, empunharam seu revólver fumegante.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 2 de abril - A fabricação da opinião pública


Em 1917, o presidente Woodrow Wilson anunciou que os Estados Unidos entrariam na Primeira Guerra Mundial.

Quatro meses e meio antes, Wilson tinha sido reeleito por ser o candidato da paz.

A opinião pública recebeu seus discursos pacifistas e sua declaração de guerra com o mesmo entusiasmo.

Edward Bernays foi o principal autor desse milagre.

Quando a guerra terminou, Bernays reconheceu publicamente que tinham sido inventadas as fotos e as histórias que acenderam o espírito bélico das massas.

Esse êxito publicitário inaugurou uma carreira brilhante.

Bernays se transformou no assessor de vários presidentes e dos empresários mais poderosos do mundo.

A realidade não é o que é, e sim o que eu digo que ela é: Bernays desenvolveu melhor que ninguém as técnicas modernas de manipulação coletiva, que empurram as pessoas para que comprem um sabonete ou uma guerra.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 1 de abril - O primeiro bispo

Imagem ilustrativa

Em 1553, o primeiro bispo do Brasil, Pedro Sardinha, desembarcou nestas terras.

Três anos depois, no sul de Alagoas, foi comido pelos índios caetés.

Alguns brasileiros acham que esse almoço foi uma invenção, um pretexto do poder colonial para roubar as terras dos caetés e exterminá-los ao longo de uma longa guerra santa.

Outros brasileiros, porém, acham que essa história ocorreu do jeito que é contada. O bispo Sardinha, que levava o destino no nome, foi o involuntário fundador da gastronomia nacional.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 30 de março - Dia do Serviço Doméstico

Imagem ilustrativa
Maruja não tinha idade.

De seus anos de antes, nada contava. De seus anos de depois, nada esperava.

Não era bonita, nem feia, nem mais ou menos.

Caminhava arrastando os pés, empunhando o espanador, ou a vassoura, ou a caçarola.

Acordada, afundava a cabeça entre os ombros.

Dormindo, afundava a cabeça entre os joelhos.

Quando falavam com ela, olhava para o chão, como quem conta formigas.

Havia trabalhado em casas alheias desde que tinha memória.
 
Nunca havia saído da cidade de Lima.

Fez muita faxina, de casa em casa, e não se achava em nenhuma delas. Finalmente, encontrou um lugar onde foi tratada como se fosse uma pessoa.

Poucos dias depois, foi-se embora.

O carinho estava virando costume.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 29 de março - Aqui existiu uma selva


Milagre na selva amazônica: no ano de 1967, um grande jorro de petróleo brotou do lago Agrio.

A partir de então, a empresa Texaco sentou-se à mesa, guardanapo no pescoço e garfo na mão, e se fartou de engolir petróleo e gás durante um quarto de século, e cagou sobre a selva equatoriana setenta e sete bilhões de litros de veneno.

Os indígenas não conheciam a palavra contaminação.

Ficaram conhecendo quando os peixes desandaram a morrer nos rios de barriga para cima, as lagoas ficaram salgadas, as árvores secaram na beira d’água, os animais começaram a fugir, a terra deixou de dar frutos e as pessoas passaram a nascer doentes.

Vários presidentes do Equador, todos eles acima de qualquer suspeita, colaboraram na tarefa, que foi desinteressadamente aplaudida pelos publicitários que a exaltaram, os jornalistas que a enfeitaram, os advogados que a defenderam, os especialistas que a justificaram e os cientistas que a absolveram.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 28 de março - A fabricação da África


Em 1932, pouco depois de sua estreia, Tarzan, o rei das selvas atraía multidões que faziam longas filas nos cinemas.

Desde então, Tarzan foi Johnny Weissmuller, nascido na Romênia, e seu grito, difundido por Hollywood, foi o idioma universal da África, embora ele nunca tenha estado lá.

Tarzan não tinha um vocabulário dos mais ricos, só sabia dizer Me Tarzan, you Jane , mas nadava feito ninguém, ganhou cinco medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos e gritava como ninguém jamais havia gritado.

Esse uivo do rei da selva era obra de Douglas Shearer, um especialista em som que soube mesclar vozes de gorilas, hienas, camelos, violinos, sopranos e tenores.

Até o último de seus dias, Johnny Weissmuller teve que
suportar o assédio de admiradoras que rogavam para ele uivar.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

Dia 27 de março - Dia do Teatro


No ano de 2010, a empresa Murray Hill Inc. exigiu que os políticos que fingem governar deixassem de fazer teatro.

Pouco antes, a Suprema Corte de Justiça dos Estados Unidos havia declarado que não violam a lei as empresas que financiam as campanhas eleitorais dos políticos; e, desde muito antes, já eram legais os subornos que os legisladores recebem através dos lobbies.

Aplicando o bom-senso, Murray Hill Inc. anunciou que apresentaria sua candidatura ao Congresso dos Estados Unidos, pelo estado de Maryland. Já era hora de prescindir dos intermediários:
– É a nossa democracia. Nós a compramos. Nós pagamos por ela. Por que não assumirmos o volante? Votem em nós, para ter a melhor democracia que o dinheiro pode comprar.

Muita gente pensou que era piada. Era?

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO