PONTO DE PARTIDA

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quinta-feira, 18 de abril de 2019

Dia 15 de abril - As pinturas negras


Em 1828, Francisco de Goya morreu no desterro.

Acossado pela Inquisição, tinha partido para a França.

Em sua agonia, Goya evocou, entre algumas palavras incompreensíveis, sua querida casa dos arredores de Madri, nas margens do rio Manzanares. Lá havia ficado o melhor dele, o mais seu, pintado nas paredes.

Depois da sua morte, essa casa foi vendida e revendida, com pinturas e tudo, até que as obras, desprendidas das paredes, passaram para a tela. Foram oferecidas, em vão, na Exposição Internacional de Paris.

Ninguém se interessou em ver, e muito menos em comprar, essas ferozes profecias do século seguinte, onde a dor matava a cor e sem pudor o horror se mostrava em carne viva.

Tampouco o Museu do Prado quis comprá-las, até que no começo de 1882 as obras enfim entraram lá, doadas.

As chamadas pinturas negras ocupam, agora, uma das salas
mais visitadas do museu.
– Isso, eu pinto para mim – havia dito Goya.

Ele não sabia que pintava para nós.

Do Livro: OS FILHOS DOS DIAS
De: EDUARDO GALEANO

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